domingo, 21 de dezembro de 2008


Mulher e tulipas


21/12/2008

Derrama teu último desejo
contradições à espreita
sou uma mulher de tulipas
vermelhas, brancas ou amarelas

abomino essa estética do medo
que aflige
flagela
e esfacela pétalas

sedenta e escarlate
anuncia o não-amanhã
sou uma mulher
que vem da primavera de ontem

teu perfume varonil
atrai negligência aos pobres
sou uma mulher
dessas nada comuns

desmancha
e arrebata a virgindade dos botões
sou uma mulher
apenas aurora

perdão em teus jardins
carregados de fel
sou uma mulher
pronta para a próxima dança.



Redundâncias sobre Natal


Redundâncias sobre Natal


21/12/2008

Tragou seu último cigarro da noite acompanhado por Janis Joplin. Lembrava-se de sua mãe que sempre colocava vinis de rock’n roll para os filhos dormirem. Ficou ali, embriagado pela solidão entre quatro paredes. Sabia que era um pecador e também um bom homem. A culpa cristã amenizava seus pecados. E, em seu confessionário doméstico, rememorou. Trepou com muitas mulheres e não levou nenhuma a sério. Desejou a mulher do próximo e não teve vergonha de seguir em frente. Fechou os vidros do carro para as crianças que batiam. Coisas comuns de um homem comum. E Ferreira Gullar continuava em sua cabeceira. Os ponteiros eram seus inimigos e atormentavam em seu tic tac. Tic tac. Olhou pela varanda e as travestis ocupavam as ruas, enquanto sua samambaia fenecia. “Foda-se”, pensou. Desceu para comprar cigarros com a incerteza da volta. O submundo da noite entrava em cena pelas esquinas. Um maço de cigarros, um vinho tinto e uma travesti, Kéllem. Sua compra estava feita e teria companhia para a noite. Chegou em casa e deixou Kéllem à vontade. Tirou comida congelada e pôs no microondas. Vinte minutos para o jantar. Aproveitou para abrir o vinho. Serviu em taças longas. Kéllem sentou-se no sofá, pernas cruzadas para a esquerda e o homem comum tirou suas sandálias. Fez massagem nos pés calejados. Preparou a banheira, entupiu de sais e aromatizantes, pôs uma música e acendeu velas. Tomou Kéllem pelas mãos como se fosse uma rainha. Tirou-lhe a roupa cuidadosamente e a colocou na banheira. Deu-lhe banho como se fosse sua mãe. Kéllem quase dormiu, mas manteve-se atenta. Existiam regras: não podiam conversar ou pronunciar qualquer palavra. Eram mudos na solidão e nas contradições de corpos. Depois de lavar o corpo transeunte, o homem comum estendeu-lhe um roupão, secou e penteou seus cabelos. A comida estava pronta. Sentaram-se à mesa. Tomaram mais vinho e comeram uma dessas lasanhas congeladas. E o homem comum balbuciou:

“Feliz Natal”.

Comeram. E, na TV, Roberto Carlos redundava.

"Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar".

(trecho do poema Homem Comum de Ferreira Gullar)


sábado, 20 de dezembro de 2008

Noites de senhoras no Centro de Campinas

Noites de senhoras no Centro de Campinas

20/12/2008 - Para Larissa e Bruna

Deslumbrou-se com o tapete vermelho em plena Francisco Glicério, estendido por uma tal ótica. Poderia usar seu salto novo com glamour. Ficou ali, na esquina com a Benjamin Constant. Quase 22 horas. Aquele movimento clandestino das noites campineiras lhe excitava. Inspirava um céu arredio. Inspirava ofertas e procuras. Inspirava uma ode aos ratos sem Chico. Sabia que a baixa dos pneus era o prelúdio de sua noite. Gostava de desfilar pelo tapete vermelho, sentir-se iluminada pela Lua e ovacionada pelas buzinas. Fechava até os olhos e girava o corpo esquálido pela esquina. Tinha apenas a Lua como espectadora fiel. E o farol anunciava o fim do espetáculo. É hora de abrir os olhos e as pernas. Depois de algumas horas, ficou em alguma esquina da Vila Industrial. Precisava voltar ao Centro, ao seu tapete vermelho. E mais um farol lhe assistiu. Ainda precisava de mais alguns faróis nesta noite. Era o seu lampião de submundo. Seguiu pelas ruas. Foi passando. Entre lençóis vagabundos de um hotel barato da região boca-de-lixo, bem ali, no caminho entre o Terminal Central e a Estação Cultura. Entre estofados encardidos forrados com desejo e instinto. Entre sonhos de olhos cerrados. Caminhou da Saldanha Marinho até a Moraes Salles. 5 da manhã. Parou em um desses botecos vulgares e cúmplices de uma noite clandestina. Logo veio a primeira cerveja e, com ela, o primeiro acompanhante de mesa. O homem espiou seu decote, apalpou-lhe os seios e entre as coxas publicamente. Um ato despudorado consentido pelo entorno. Foi ao banheiro e a conta estava paga. Agora era sua vez. “- Ô Vicentão, traz uma cerveja aí para mim. Ah! E dois copos”. Já estava só na mesa e o garçom lhe trouxe o pedido. Encheu os dois copos e o menino lhe questionou: “- Mas, por que dois copos se está sozinha”. “- E quem disse que estou sozinha?”, respondeu. Rubro e desconcertado o menino foi até o balcão ajudar uma cliente. Ficou assim: brindando consigo mesma, para que pensassem que estava acompanhada. Queria beber sua cerveja sozinha, simplesmente isso, sem ser incomodada. Arrancou um guardanapo e começou a limpar sua maquiagem convalescente. Vermelho e preto eram os resquícios de sua face. Estava cansada, seus pés doíam, suas costas incomodavam. E, duas cervejas depois, ainda pensava no tapete vermelho. Juntou o dinheiro da bolsa. Cerca de R$150. O sol trocava de lugar com a Lua. Já eram sete da manhã. Pediu algo para comer, estava com fome e teria preguiça de chegar em casa e cozinhar. Promoção do dia: caldo de mandioca! Sentia-se um pouco bêbada, mas precisava manter-se acordada. Foi até o banheiro, repudiou sua cara lavada no espelho. Desenrolou e cheirou. Quase nove da manhã e o boteco já fechava. Enrolou sua bolsa na mão e seguiu andando, mesmo com os pés doloridos, bolhas nas solas e machucados nos calcanhares. O salto lhe matava. Desceu pela Francisco Glicério. As pessoas olhavam, matinais em seu julgamento. Ergueu a cabeça e seguiu em frente. Parou em uma dessas lojas de roupas, quase não foi atendida, mas insistiu, brigou. Saiu de lá com roupa nova. Até passou um batom, enquanto esperava o semáforo abrir. Continuou pela Glicério e o seu tapete vermelho estava lá. Não era mais seu, estava ocupado por transeuntes. Estreou seu vestido novo, especial para a valsa dos quereres. Dançou entre pedestres, seguranças, vendedores, sem se importar com comentários. Depois de minutos dançando, seus pés escarlates revelavam o sangue que escorria pela sarjeta. Caiu de joelhos. Caíram lágrimas. Caíram os sonhos. E a polícia chegou.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Noites de um Barão em Campinas

18/12/2008

Senhor Barão de Jaguara Nu e Cru

Descendo a rua viva do senhor Barão de Jaguara de Campinas. 22 horas: prostitutas, cafetões, drogas, silêncio e negócios. Mas é preciso lembrar. Logo ali, um auto de Natal. O Largo do Pará com seus bonecos de neve, estrelas, luzes, trenós em pleno cotidiano tropical. Crianças rondam o Papai Noel e da sua barba branca apenas uma semelhança: a cor do pó de cocaína que aspiram. Branco como um floco de neve.

Senhor Barão de Itapura Esfomeado e Miserável

Rec, rec, rec. Este era o som que suas latinhas faziam ao encostar ao chão da avenida Barão de Itapura. Ainda tinha poucas, cerca de 50. E seus pés cansados naquele chinelo Havaianas azul e branco resolveram parar. Bolsos vazios e rasgados. Estômago vazio e rasgado. Apoiou-se em uma grade de ferro branca descascada. Secou o suor de seu rosto, linhas calejadas de miséria, enquanto pensava no quê levar ao jantar das netas. Sentiu a umidade em sua mão. Era o cachorro da casa lambendo seus dedos. Havia encostado em uma casa. E ficou ali a brincar com o cãozinho, sem ninguém lhe perceber.

Senhor Barão Geraldo Devasso e Oportunista


Terminal fechado. Ônibus na garagem. Sem dinheiro. Táxi nem pensar. Sem amigos. O que faria para sair da terra do Senhor Barão Geraldo? Sabia que logo a expulsariam. Andou e a noite estava alta. Andou e a estrada chegava. Andou e a Senhora estrada da Rhodia se aproximava. Tomou coragem, abaixou a calcinha e levantou a saia. E um desses carros importados, recém-saídos de um belo senhor condomínio fez-lhe o favor. E quem pagou a conta?

QUEM PAGOU A CONTA? MALDITOS BARÕES!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Homenagem póstuma para a dita cuja


15/12/2008

Camila Marins está fora do ar. Por quanto tempo? E eu vou lá saber... O importante é que, a partir de agora, eu assumirei as linhas digitais deste blog. Sim! Eu mesmo: AMARELO MANGA COM VERDE ABACATE PORRA.



Homenagem póstuma para a dita cuja


De cama

Olhos confabulam tremores febris
e apenas pés são vislumbrados
toda a indignação transforma-se
em véu sobre a cama

oferta-me sua última hóstia

lençóis doentios sorvem o velo
de uma melancolia esgarçada em linho
seu corpo doente lamenta
e suplica pela extrema unção

oferta-me sua última hóstia

comerá Cristo em sua própria cama
lúbrica em movimentos

oferta-me sua última hóstia

apenas enxergará pés
pés não cobertos por chagas
os pés de sua própria cama.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Quem é você?


Quem é você?

11/12/2008


Ato I

Continuo solitária nessa imensa platéia de teatro. Ao meu redor, o nada e à frente máscaras dançam entre sorrisos e lágrimas. Pessoas gritam todo o pragmatismo de um mundo sem dono abanando o rabo para todos os lados. Sombras de Hamlet anunciam dúvidas de uma alma indignada. Alguém toca um jazz e a poltrona me excita em tom melancólico. Entre as coxias procuro um fantasma e nem sinto cheiro de uma ópera de subúrbio, apenas alteridade. Ouço línguas febris de uma torre de babel falaciosa que insiste em me cooptar para a cama do rei. Recuso lençóis fracionados e incansavelmente incertos.

Ato II

Cubra-me com o mais puro veludo. Sei que prefere o veludo escarlate, a cor roubada da Dama das Camélias, a cor que jorra entre pernas. Conte-me estórias em conta-gotas, pois vou deitar e rolar entre pétalas de fel. Arranca minha roupa e dança nu entre sombras. Delira em teus maiores sonhos, porque são eles que vão no vão do espelho. As entrelinhas gritam e quase posso ouvir gargalhadas de desespero da barbárie. Ouço, vejo, sinto e cheiro toda a tua dor que invade o meu peito sem licença e nada faz sentido. Talvez você seja o mundo, mas não é o mundo que eu queria. Não é o mundo que carrego em minha mente e em meu coração. Não importa se vou para a cama com Lênin ou Trotski, meus lençóis são seus e meu corpo dança sua valsa de insuficiências. Já no fim do espetáculo derreto-me nua pelo chão de taco e ainda tenho forças para o último ato: o apagar das luzes.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Divagações de uma motorista

09/12/2008

Cinco da manhã e lá estava eu tomando café. Chego ao exame da auto-escola às seis e meia e poucos já haviam chegado. Uma menina me pede informação. Afinal, este seria um dos primeiros exames a serem realizados no local. Nem eu sabia responder às suas perguntas, pois estávamos na mesma situação: alguém da família recebeu o recado e repassou, enquanto a dúvida pairou. Comigo foi assim: viajei na quinta. Gosto de ficar incomunicável, pelo menos, parcialmente. Sexta-feira recebi uma mensagem de minha mãe avisando que meu exame seria dia 9, nesta terça-feira, após o feriado em um local que eu nunca havia treinado ou estado antes. Ir ou não ir? Go or not to go? Eu precisava ir, porque, certamente, a auto-escola me cobraria a falta. Portanto, melhor ir. Cheguei na madrugada de segunda-feira em casa e amanheci com Henry e June.

A menina estava na mesma situação. Veio de Jaguariúna apenas para realizar o exame, também receosa pela cobrança da falta, caso viesse a faltar. Buscamos nossos instrutores e para quem acompanhou meus diários por aí, sabe que não me dei bem no início. No entanto, ao realizar a famigerada mudança de instrutor, eis que surge o santo. Santo Fernando. Um senhor simpático e, principalmente, paciente. E ainda dividíamos coincidências: eu conhecia o filho dele, a nora... São Fernando me ensinou a arrumar os espelhos, a realizar curvas abertas ou fechadas no momento certo e a dirigir um carro sem direção hidráulica! Confesso: é um horror. Mas Fernando me ensinou que posso ser uma boa motorista, apesar de ser mais cômodo transitar como passageira. Fiz questão de pagar aulas a mais e quando tudo ia bem: greve dos policiais civis. Reivindicações justas que atrasaram minha prova em quase um mês e não me permitiram aulas extras momentos antes.

Sabendo da notícia que iria realizar o exame no dia seguinte de meu retorno a Campinas, pedi a uma amiga que saísse de carro comigo. Fui e voltei guiando, sem deixar o carro morrer, fazendo paradas obrigatórias, sinalizando, mas sem usar a terceira marcha, apenas a segunda, ela me era suficiente. E, neste momento, minha amiga disse:

- Cá, você não vai passar no exame, mas é normal.

Ouvi tranquilamente e não questionei, porque sabia de minhas fragilidades. Continuemos a falar sobre o exame. Depois de algumas horas de espera, finalmente, encontro São Fernando e, com ele, outros alunos. Blá, blá, blá. Eu sei! Eu sei! Rita Lee estava certa: “eu sou mais macho que muito homem”. Sim! São Fernando tinha duas alunas frágeis demais para o meu gosto, uma queria chorar, a outra não parava de falar em reprovação e regras teóricas. Blá, blá, blá. William era diferente, ficava quieto a maior parte do tempo e convidou-me a sentar em uma dessas sombras de esquina.

- Não entendo como você pode ser tão zen assim?! Como mantém a calma? – ele me questionou.
- William, faça-me esta pergunta após a minha prova e talvez entenderá. – lhe respondi.

- Quem vai primeiro? – perguntou uma das meninas que, coincidentemente, chamava-se Camila.

Eu e William nos prontificamos. Ele primeiro e eu a segunda. Fomos nós dois no carro. Enquanto aguardávamos o delegado entrar, William testava o carro e eu apenas bocejava e ouvia conversas do outro lado.

- E aí? Foi à assembléia ontem? – perguntou o delegado a um dos instrutores.

E, ao avistar o delegado, rapidamente, divaguei. Que assembléia seria esta? Assembléia de Deus? Será que se eu dissesse que era evangélica ele me aprovaria? Assembléia dos policiais civis? Devo explicitar toda a minha solidariedade à greve? Ou simplesmente achá-lo bonitão e simpático? Nada disso. E podem acreditar, pensei em tudo isso em apenas alguns minutos. São aqueles pensamentos que todos têm, mas não admitem. O delegado entrou no carro e nos cumprimentou educadamente. William deu partida, fez uma curva difícil com valeta e meio quarteirão depois estacionou em uma sombra para trocar de lugar comigo. Ele passou.

Pus o cinto, arrumei os espelhos, liguei o carro, pus a primeira e arranquei. E quem disse que o carro saia do lugar? Esqueci do freio de mão. Falta! Percebo a luz vermelha no painel, abaixo o freio de mão e sigo em frente já com as pernas tremendo. Faz-me rir. Quem disse que consigo seguir em frente? Nada do ponto da embreagem, o carro quase morre, mas piso forte, tento novamente o ponto, piso forte novamente, lá vai o ponto e a aceleração nada. O carro morre. Tento novamente. Insisto e nada. Aliás, tudo, o carro morre. Mais uma tentativa e já desisto. Vai morrer mesmo, então deixo morrer e o delegado diz:

- Pode descer Camila, troca de lugar comigo.

Desço e o delegado arranca para o local de início da prova. Olho sorrateiramente para William que tem mais cara de assustado e arrasado do que eu. Ali comecei a sentir vergonha, não por mim, mas pelo William. Parecia que ele sofria mais do que eu pela minha derrota.

- Camila, você disse para eu te perguntar como você se mantinha tão calma e zen. – perguntou-me William.
- Ah sim! Fácil. Desde o início eu sabia que eu não passaria... Só não esperava que o carro não saísse do lugar. Foi um pouco pior do que imaginei.

Meu instrutor, meu São Fernando, estava inconformado:

- Camila, eu te conheço. O que aconteceu?
- Nem eu sei meu querido Fernando, nem eu sei.

Perdi oito pontos, fui reprovada direto sem passar pela baliza. Saí de lá quase onze da manhã. São Fernando ainda me deixou em um ponto de ônibus próximo e já combinava comigo as próximas aulas. Ligo meu celular e meu amigo Gabriel, curioso, me telefona. Conto a ele. Ficou mal, mas não tão mal quanto William. Fiquei até envergonhada pela feição que ele fez com a minha reprova. Estas coisas acontecem e não antecipo sofrimentos ou fico remoendo, mas William me deixou triste por um momento. Pronto, passou!

Aviso algumas pessoas sobre minha reprovação direta e enfio-me no trabalho. Até sumo durante o dia, não propositalmente. Vou almoçar com umas amigas em um restaurante e na fila do caixa vejo alguns sacos de lichia à venda. Pego um deles e uma das meninas diz:

- Esta fruta não parece um clitóris?

E ainda me perguntam de onde tiro minhas idéias. É a vida. Vida que passa. Passarinhadeira. E assim William, o delegado, as meninas e o meu instrutor passaram pela minha vida. E na TV: Capitu me aparece tatuada dividindo um giz com Bento. Se eu passar na prova prometo... prometo... prometo nada! E aos céus nenhum favor deverei!

Saldo final: nenhum cigarro e nenhum porre!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Confissões entre seios


Confissões entre seios

07/12/2008

Acordou com aquela ressaca de final de semana. Boca seca, corpo dolorido, cabeça pesada e no espelho roxos descobertos. Não se lembrava do que havia acontecido, apenas algumas memórias representadas por camisinhas e pétalas de margarida no chão. Sem preocupação com o arrependimento pretérito, entrou no banho ainda com desejo. Com a toalha enrolada na cintura, deixou o banheiro e cinco mensagens na secretária já lhe aguardavam. Eram suas amigas curiosas. Mesmo assim, marcou um almoço.

Foi para a casa de Clarice e as quatro já estavam lá, jogadas na cama de casal em frente à TV. Fofocas, comentários sobre a noite, beijos dados e beijos não dados, estes eram apenas alguns dos assuntos do dia seguinte. Por mais que fossem amigos há anos, algumas situações ainda o incomodavam, pareciam mundos diferentes que teria de fingir algumas ações e reações. No entanto, concomitante a isso, sentia-se liberto ao lado delas, uma sinceridade meramente estranha. Joana está grávida e sente desejo de sorvete. Clarice a critica dizendo que é manha, mas Maria vai até a cozinha buscar-lhe o sorvete. As mulheres falam sobre gravidez, amamentação, filhos, relacionamentos, enquanto Pedro as observa de um modo soturno, porém atento. E quando ele percebe, as quatro estão de seios à mostra quase em uma competição feminina.

- Eu vou amamentar pouco, mas Clarice vai dar leite até dizer chega.
- Parem de besteira, meninas. Até parece que este tipo de comparação influencia a amamentação, é algo natural.

Ouviu os diálogos e a vitória de Clarice. Continuou a observar as amigas com os seios de fora: de todos os tamanhos, cores e bicos, enquanto na televisão, o Globo Repórter mostrava índias também de seios à mostra quase no umbigo. Ficou questionando a diferença entre suas amigas desnudas e aquelas índias. Resolveu contar.

- Meninas, transei com uma mulher ontem à noite. – revelou Pedro.

Perplexas e um tanto exclamativas, as amigas questionaram sua sexualidade.

- Foi com aquela mulher do balcão com a flor no cabelo?
- Margarida, Clarice. Eram margaridas em seus cabelos. E sim, foi com ela e não me arrependo.

Imediatamente, as mulheres cobriram os seios e continuaram o interrogatório. Passava de Pedro, o amigo gay para Pedro, o oprimido. Joana, que sempre tivera uma queda pelo amigo, não se conformava.

- Meninas, acalmem-se. Não é porque sou gay que não posso ter relações com mulheres. Foi uma surpresa boa, da experiência à libertação. Ela é sensível, inteligente e muito atraente. Quando percebi já estávamos na cama gozando ao mesmo tempo. Sorvi cada detalhe feminino, cada defeito, cada qualidade, talvez aquilo que nos uniu sejam nossas mentes. A inocência daquela mulher me excitava mais do que qualquer fantasia sexual. Ela não era a minha vagabunda. Ela não era a minha santa. Ela era minha, simplesmente. Aquele momento era nosso. Apenas duas mentes em sua discreta orgia.

Neste momento, panos descobriram os seios das amigas que já não se importavam. Lágrimas marcavam colos femininos. Pedro abandonou as amigas com o Globo Repórter ainda com a ressaca de devassidão. Queria encontrar aquela mulher novamente, mas nem seu nome sabia. Sonhava em levá-la ao leito novamente, mas sabia que era praticamente impossível. E o impossível continuou a lhe excitar pelo resto da vida.

domingo, 30 de novembro de 2008

Boceta de Pandora


Boceta de PandoraPara a “mulher de Almodóvar”

29/11/2008

Quando criança tinha mania de enfiar coisas pela boceta. Talvez sete anos e abria as pernas para engolir o mundo. Enfiava seus brinquedos até que, um dia, a cabeça de sua Barbie loira quedou-se rubra pelo chão. Desvirginou-se e o mundo não cabia em si. Cresceu assim, esfregando-se entre móveis. Quando ganhou a primeira bicicleta rosa pulava tanto no banco, que um dia começou a enfiá-la pelo guidão. Aos 16, a escola lhe ocupava e não conseguia atender às expectativas. Engoliu, então, Capitu, Guarani, Iracema, Sargento de Mílicias. Até Baleia entrou. Um a um enfrentou a mucosa que mais parecia um Zeus erótico. Ainda que torpe continuou a crescer. Agora era mulher e, aos 35 anos, fantasiava com o açougueiro do supermercado. Meteu a mão na carne moída e digeriu. Sonhava com um emprego estável e lá se foi o cartão de ponto. Sonhava com um carro e lá se foram os pneus. Sonhava com um casamento e lá se foram alianças. Sonhava com estabilidade e lá se foram as futilidades. Sonhava com o lugar comum e lá se foram os sonhos. Sonhava com o amor e lá se foi a barriga. Sim! Inchou! Não sabia o que lhe acometia, apenas que não era a sua barriga que inflava a cada mês. Era a sua coxa prestes a parir. Parou de enfiar coisas pela boceta. E, finalmente, com tudo isto dentro de si, percebeu que nada daquilo lhe pertencia. Que tudo que era seu havia se perdido lá fora, ao seu redor. Tudo aquilo que precisava não estava entre suas coxas, entre mitos ou entre veias. Tudo aquilo que precisava era o som da respiração ofegante do mundo. Eram os sinais da diferença, alguns tragos de uma boemia perdida. Perdeu-se em lamentações que profanavam terços de senhoras de meia-idade. Vociferou os joelhos em demonstrações de uma confissão arrancada. E todo seu arrependimento tornou-se fora do comum. Foi neste momento, entre a merda não rejeitada, que pariu. Entre suas coxas deslizou Pandora e a boceta nunca mais engoliu.

"Ninguém , com toda certeza, é capaz de assumir a liderança em todos os campos, pois para um homem os deuses concederam as proezas da guerra, a outro, a dança, para um outro, a música e o canto, e, num outro, o todo poderoso Zeus colocou uma boa cabeça". - Homero

Boceta: - de Pandora: aquilo que, debaixo de aparência sedutora, pode ser origem de muitos males.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Movimente-se

Há algum tempo meu engessamento artístico tem me incomodado, tanto pela produção, quanto pela expressão. Lembro-me da voracidade com que eu escrevia poemas. O tempo passou, mas a inquietação não. Ontem, conheci uma atriz que me motivou a retomar alguns projetos. Só pode ter sido um ardil do Saci!

De acordo com o dicionário da língua portuguesa, Arte significa: "conjunto de preceitos ou regras para bem dizer ou fazer qualquer coisa". Esta é a minha busca: a coisa. Aquilo que estranha, aquilo que inquieta, aquilo que busca a reflexão. Busco novas formas de expressão, incitar o estranhamento, incitar o conhecimento da "coisa". Este é o grande desafio: trabalhar com diferentes linguagens, diferentes espaços, diferentes movimentações que levam a um único objetivo: a reflexão integrada, ou seja, a crítica multiplicadora, a consciência coletiva.

A idéia é a seguinte: reunir poetas, atores, músicos, repentistas, palhaços... Enfim, artistas reunidos em um espaço compartilhando Arte. Uma atriz interpreta o poema de outrem enquanto alguém faz a trilha sonora. Diferentes movimentações, de preferência em um espaço público, a fim de movimentar e incitar qualquer um que passa pela rua. E aí? Alguém me dá a mão para esta dança? E-mail:camila_marins@yahoo.com.br

Minha poesia

27/11/2008

Minha poesia é puro escárnio de uma noite vagabunda. Escolho a dedo minhas linhas melancólicas, enquanto a memória dilacera meu peito carregado de fel. Palhaços me apontam o dedo e começam a ciranda do desespero. Tapas na cara são reflexos do cotidiano e proibições a leitos de luxúria são habituais. Tudo que falo some em brisa quente. E falos cerceiam a libertação da poesia virgem. Escrevo porque tudo que existe em mim não cabe em um só corpo. O surreal me acomete em vestígios e canto minha dor neste papel. Meu canto é dolorido e silencioso, berra em um eco de contradições. Escrevo em azulejos brancos porque lhes faltam cor. Escrevo toda a escatologia não revelada na convivência. Escrevo porque estou de joelhos diante de minha própria alma. Escrevo porque choro cada poesia. Meu pranto macula estas linhas que já se tornam indecifráveis. Apenas fim!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Vick Cristina Barcelona


Vick Cristina Barcelona

25/11/2008

Faz algum tempo que não vou ao cinema sozinha. E Woody Allen pedia exclusividade. Foi estranho desta vez. Nem o bom moço estava por lá. Não citarei nomes, mas o tal bom moço é dono de uma bagagem cinematográfica fantástica e passávamos bons momentos comentando os filmes deste tal cinema. E, em muitas das minhas idas, presenteava-me com uma sacola de pipoca. Isso mesmo! Uma sacola de supermercado recheada de pipoca e clandestinidade. Mesmo com esta ausência significativa encarei Vick Cristina Barcelona.

Assim que as luzes se apagaram, a ansiedade me tomava. Fora de seu cenário comum de Nova York, Woody Allen explora Barcelona com destreza. A fotografia da primeira cena já mexia com minhas lembranças. Um muro estampado com cores primárias e um violão sedutor fazem-me lembrar de Almodóvar. Sim! São estilos e linhas completamente diferentes. Não há comparação alguma. Imaginemos Augusto dos Anjos e Manuel Bandeira. Talvez o clima catalão tenha me envolvido nestas lacunas da memória ou até mesmo a presença de Penélope Cruz, queridinha de Almodóvar. Reforço que o dedilhar lascivo do violão durante a trilha sonora me fez sonhar com Barcelona.

Com seqüência narrativa e uso de off ao longo da montagem, Woody Allen também utiliza técnicas de edição próprias para comédias. E também abusa da arte com variação entre o barroco e o modernismo, desde construções com estilo gótico até a escultura barroca predileta de Juan Antonio. Inclusive, Juan Antonio é o personagem interpretado por Javier Bardem e, sem dúvida alguma, o melhor dos acertos do diretor. Atuação impecável como o excêntrico artista plástico recheado de conflitos, contradições que são reveladas ao longo do filme. Sua essência vai da segurança à tempestuosidade. Aliás, uma das cenas mais comentadas deste filme é o momento que o artista conhece as turistas norte-americanas e as convida para passar um fim-de-semana em uma cidade próxima, sob o pretexto de conhecerem bons restaurantes, tomarem bons vinhos e fazerem amor. Símbolo da tradição e do conservadorismo, Vick sente-se ofendida, mas Cristina se deixa seduzir.

Durante a convivência dos três, as contradições aparecem e os conflitos são revelados. Antes de assistir, alguns me disseram que seria um filme sobre conflitos amorosos. Definitivamente não! São conflitos exclusivamente individuais e existenciais. Sobre ser ou não ser? Somos a partir de quê? Que valores são esses? De onde vem a diferença? Por que a diferença assusta tanto? Questionamentos e mais questionamentos e sem respostas. Talvez, uma única frase de Cristina tenha me acalentado: “Não sei quem eu sou, mas tenho certeza do que não quero ser”.

As luzes se acendem e um senhor de meia idade à minha frente enxuga suas lágrimas. Confesso: nada de mim restou, apenas as lágrimas compartilhadas. E quando me dei conta, o espelho borrava-se com o reflexo da diferença. Apenas eu e cacos de vidro se estilhaçavam pelo chão.

sábado, 22 de novembro de 2008

Cigarros

Ao cigarro
canção


Bernardo Guimarães

Cigarro, minhas delícias,
Quem de ti não gostarás?
Depois do café, ou chá,
Há nada mais saboroso
Que um cigarro de Campinas
De fino fumo cheiroso?

Cigarro, quanto és ditoso!
Já reinas em todo mundo,
E esse teu vapor jucundo
Por toda parte esvoaça.
Até as moças bonitas
Já te fumam por chalaça !...

Sim; - já por dedos de neve
Posto entre lábios de rosa,
Em gentil boca mimosa
Tu te ostentas com vaidade.
Que sorte digna de inveja!
Que pura felicidade!

Anália, se de teus lábios
Desprendes subtil fumaça,
Ah! tu redobras de graça,
Nem sabes que encantos tens.
À invenção do cigarro
Tu deves dar parabéns.

Qual caçoula de rubim
Exalando âmbar celeste,
Tua boca se reveste
Do mais primoroso chiste.
A tão sedutoras graças
Nenhum coração resiste.

Embora tenha o charuto
Dos fidalgos a afeição,
E do conde ou do barão
Seja embora o favorito;
Mas o querido do povo
És tu só, meu cigarrito.

Quem pode ver sem desgosto,
Esse charuto tão grosso,
Esse feio e negro troço
Nos lábios da formosura?...
E uma profanação,
Que o bom gosto não atura.

Mas um cigarrinho chique,
Alvo, mimoso e faceiro,
A um rostinho fagueiro
Dá realce encantador.
E incenso que vapora
Sobre os altares de amor.

O cachimbo oriental
Também nos dá seus regalos;
Porém nos beiços faz calos,
E nos faz a boca torta.
De tais canudos o peso
Não sei como se suporta!...

Deixemos lá o grão-turco
No tapete acocorado
Com seu cachimbo danado
Encher as barbas de sarro.
Quanto a nós, ó meus amigos,
Fumemos nosso cigarro.

Cigarro, minhas delicias,
Quem de ti não gostará?
Certo no mundo não há
Quem negue tuas vantagens.
Todos às tuas virtudes
Rendem cultos e homenagens.

És do bronco sertanejo
Infalível companheiro;
E ao cansado caminheiro
Tu és no pouso o regalo;
Em sua rede deitado
Tu sabes adormentá-lo.

Tu não fazes distinção,
És do plebeu e do nobre,
És do rico e és do pobre,
És da roça e da cidade.
Em toda a extensão professas
O direito de igualdade.

Vem pois, ó meu bom amigo,
Cigarro, minhas delícias;
Nestas horas tão propícias
Vem dar-me tuas fumaças.
Dá-mas em troco deste hino,
Que fiz-te em ação de graças.

Rio de Janeiro, 1864

Diário de um maço

20 de novembro. Diálogo:


- “Combinado, vou parar de fumar”. – disse a um amigo enquanto tomávamos uma cerveja no City Bar com o cinzeiro lotado.

Não fumo diariamente, apenas com constantes cervejas. No entanto, há algum tempo o cigarro vem me incomodando. Apesar da enorme satisfação que uns tragos proporcionam, ando preocupada com este pseudo vício. Tirarei de cena este companheiro de boemia, por mais difícil que seja.

21 de novembro. Bar com amigos. Depois de algumas horas de resistência, a tentação cai entre dedos. Dou uns tragos. Poucos, mas significativos.

22 de novembro. Ressaca e nenhum cigarro.

Sei que amanhã não fumarei, nem nos próximos dias, mas as famigeradas mesas de bar continuarão na bandeja das tentações...

- Garçom, por favor, mais uma dose!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

desvarios sobre heróis

quem são meu heróis?
não como nossos pais
até a história vai contra


Ah! meus poetas! meus sambistas!

ainda ontem tentei
sim!
meus poetas
minhas poetas
sabe o que viram ontem?
quintana pegou na minha mão
andrade não gostou nadinha
mas sambou
qual dos andrades?
tanto faz, mas um deles me deu uma rosa bem no meio do povo.
e o outro, coitado, me ensinou verbos intransitivos
transitei pela rua, acompanhada por desvairados
e no meio do caminho uma flor, uma flor bela.
uma flor mal dita pelos poetas, arremessada em seu mais duro imperativo
ontem mesmo clarice tomava um café com ana cristina e sussurravam memórias de algumas putas tristes. não tive escolha e contei tudo ao centenário gabriel que insiste na solidão. gabriel ainda me alertou: “feche os olhos menina”. mas, mesmo assim, saramago chegou, ofereceu-me intermitências da morte e sequer deixou-me chegar à cena do asfalto!!! sentei-me na praça, bem longe destes alucinados. e, em tempos de cólera e em substancial felicidade clandestina, fiquei a teus pés. já era hora! minha estrela saltou da varanda e gritou sua antologia.

Ei, você! Você mesmo! Não conta para ninguém, mas vou tomar um uísque com J. Toledo. Bye!

sábado, 15 de novembro de 2008

Happy End

15/11/2008

Adormeceu com os ruídos da noite paulistana. Ainda no segundo andar podia ouvir um meio salto rastejando pelas ruas do Centro da cidade, pneus queimando canções pelo asfalto, garrafas ensaiando ballet em uma disputa entre cavalheiros. Esta era a canção de ninar que o embalava todas as noites. Adormeceu assim: com sua orelha direita queimando na coxa esquerda daquela mulher. Seu nariz roçava o vão daquela virilha feminina. Adormeceu e, em seus sonhos, o cotidiano. Em algumas noites gostava de dormir com meias. Mesmo no verão, usava edredon. Fazia bolhinhas de sabão com o xampu. Lia dicionário no banheiro. Guardava seu bombom preferido para o final. Comia massa de bolo crua. Andava nu pela casa recitando Drummond. Escondia seus CDs do Roberto Carlos. Deixava a barba crescer bastante só para ter o prazer de arrancá-la e sentir-se outro homem. Entre vigília e sono, acordou com o barulho do escapamento de um ônibus cuspidor de diesel. Entre coxas, não hesitou. Fitou a pele morena magenta e sacudiu a mulher em seu leito.

- Clarice, acorde! Tenho algo importante a dizer. – murmurou.

Espreguiçando-se, ainda sonolenta, Clarice levantou a cabeça e parte do tronco de modo a apoiar seus cotovelos sobre a cama. Ele continuou entre coxas apoiando as mãos no queixo.

- Case-se comigo. – ele perguntou.
- Eu aceito com algumas condições: nada de igreja, véu, grinalda, festa, família, presentes, padrinhos, bolo com dois andares, chá de cozinha ou união civil. Nada disso. Continuemos assim: cada um em seu apartamento com camas compartilhadas.

Nesse momento, ele percebeu que era o homem mais feliz do mundo, mesmo anônimo. Novamente, adormeceu. Desta vez, sobre o ventre.



terça-feira, 11 de novembro de 2008


Poema do poema

11/11/2008

Já disse e repito:
Não uso rimas
Ou qualquer tipo de cortesia verbal ou nominal
Minha poesia é assim: livre e, talvez, libertina
as palavras me atormentam
e a cada linha o flerte aumenta
nem sempre palavras
confundem-se com autoria
por favor!
merdas são ditas
entrelinhas
cansei-me de tais ditos
daqueles ditos cujos
e a contradição me abate
e Lilith ou Dionísio não mais me comovem
talvez Ártemis ou Hefesto
não falo a sua língua
nem a minha!
e deste poema
uma rima para a última linha

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Reclame



"A esses lhes digo eu na cara, conquanto não soe muito bem: o mundo parece-se com o homem por ter também traseiro; isto é a grande verdade!"


Friedrich Nietzsche em 'Assim Falou Zaratustra' - XIV


Alice

Cena de Alice:
- "Sim vó, estou em casa"!

“Logo à direita está a praça da Sé” – informaram-me.
Centenas de pessoas são abrigadas pela praça. Curiosamente, entro na igreja, sento-me e começo a ouvir a novena que fazem. Dezenas de orações, burburinhos, sussurros, súplicas, penitências, confissões. Tudo ali, abrigado pela fé. Hora de ir para a Barra Funda, local onde faria a prova. Já na volta para Campinas, lembro-me de Alice!

Talvez eu ainda não saiba exatamente onde eu esteja...



Alice é uma série na HBO

quinta-feira, 6 de novembro de 2008


Balada do cárcere


(homenagem singela para Oscar Wilde)

05/11/2008

arrancou minhas vísceras
enquanto atabaques gritavam meu desespero
Rasgou minha pele com dentes
e ainda olhava-se no espelho

os sinos badalaram e
nem o mais casto dos padres te acudiu
A cruz lhe fugia à sentença
e o pecado era sua natureza

quem é você?
você é quem?

Em sua sacristia de pura volúpia
entornou um cálice de desejo escorregadio
- entre perdas e danos -
o limbo ainda o esperava

e por baixo da roupa
sangue fervia entre veias pulsantes
e o que fez?
acolheu misérias em minh’alma

balança
balança
porque um corpo cai

mais um...


terça-feira, 4 de novembro de 2008

Reprise de David Lynch no Roda Viva

Reprise de David Lynch no Roda Viva

04/11/2008

Cena: jornalistas, cineastas renomados sabatinam David Lynch.

É claro que, inicialmente, os jornalistas tentaram pautá-lo com questões sobre cinema, Hollywood, surrealismo, Arte, mundo onírico, infância e outros temas.

Tapa na cara ou obviedade?

Pergunta:
Sr. Lynch, por que o senhor acha que Hollywood boicota os seus filmes e sempre tem de buscar parceiros europeus?

Resposta de Lynch:
Hollywood não boicota meus filmes. Eu não faço filmes quando não há como fazê-los. (Lynch refere-se aos contratos de Hollywood que não permitem a edição final do filme, fato que reduz a autonomia do diretor).

Diante de tantas respostas secas do diretor, os jornalistas resolvem pautá-lo por outro caminho, já que Lynch conseguiu pautá-los em boa parte da entrevista (não vejo isso como um mau sinal, pois também ficou claro o cuidado e o respeito dos profissionais com o artista, mas, é claro, que o público quer mais). Meditação é a bola da vez! Em parte, os jornalistas acertaram, pois Lynch respondia cada pergunta com ênfase, sem celeridade e discorria sobre o assunto plenamente. No entanto, qual o interesse do público quando se depara com Lynch no Brasil? Certamente não é meditação. Cinema! Arte! Fotografia!

Grotesco? – usando a meditação para falar sobre cinema? Ou usando Hollywood para falar sobre meditação? Ou nada disso? Ou o Tom Cruise tem um caso com John Travolta?

Pergunta: Alguns atores de Hollywood como Tom Cruise, John Travolta aderiram a cientologia. O que o senhor acha da divulgação desta religião? (algo parecido com isso).

Resposta:
Meditação não é religião.

Eu digo mais: meditação não é Hollywood. Meditação não é cinema! Cadê o cinema? Não que o tema “meditação” não me atraía, mas eu quero ouvir Lynch e suas teorias sobre cinema, arte.

Uma das perguntas me deixou feliz, porque a resposta de Lynch pode ter sido a chave de seus enigmas.

Pergunta: Como foi a sua infância?

Resposta: Repleta de sonhos. Fantástica. Pude fantasiar muito, sonhar e passear pelo mato. Porque de uma coisa eu entendo: é mato – todos os seus mistérios e segredos.

Bingo! Cidade dos Sonhos! Quem assistiu sabe muito bem do quê estou falando... Por mais que desviasse sobre o assunto, Lynch jogou algumas chaves no ar. Enquanto falava, o cineasta dedilhava no ar suavemente como se estivesse compondo alguma melodia.

Para finalizar:

Pergunta: O que o senhor achou do Brasil?

Resposta: Ah! Os túneis do Rio de Janeiro passando pelas montanhas... daria um belo filme....

Será?

sábado, 1 de novembro de 2008

Verossimilhança

"Se, depois que eu saísse, um amigo meu desse uma festa e não me convidasse, eu não me importaria nada. Sou perfeitamente capaz de ser feliz sozinho. Tenho liberdade, livros, flores, e a lua, quem poderia ser tão feliz? Além do mais, já não estou muito para festas. Já progredi demasiado para me preocupar com elas. Esse lado da vida acabou para mim, e atrevo-me a dizer que ainda bem! Mas, se depois de eu sair, um amigo meu tivesse uma dor e se recusasse a permitir-me partilhá-la com ele, senti-lo-ia com muita amargura. Se ele me fechasse na cara as portas da casa do luto, eu voltaria uma vez e outra e pediria para ser admitido, para poder partilhar aquilo que tinha o direito de partilhar. Se ele me achasse indigno, incapaz de chorar com ele, senti-lo-ia como a mais pungente humilhação, como o mais terrível modo de a desgraça me ser imposta. Mas isso nunca aconteceria. Eu tenho o direito de partilhar a Dor, e aquele que é capaz de olhar para os encantos do mundo, e partilhar a Dor, e a tua dor, e compreender um pouco a maravilha de ambos, está em contato direto com as coisas divinas, e chegou tão perto do segredo de Deus quanto alguém pode estar"


"Será necessário afirmar que percebi nitidamente que seria uma desonra para mim continuar a ter qualquer relação, ainda que superficial, com uma pessoa como a que tu mostraras ser? Que reconheci que tinha chegado o último momento e que o reconheci como sendo, de fato, um imenso alívio? E que sabia que, no futuro, a minha Arte e a minha Vida seriam livres, melhores e mais belas, de todos os pontos de vista possíveis? Doente como estava, senti-me emancipado"


Oscar Wilde em De Profundis - Balada do Cárcere de Reading





Cacto's

Bela parceria com o querido amigo e poeta, Franco Rajer. Lembro-me exatamente do telefone tocando de madrugada e cactos atravessando nosso diálogo inspirado por um poeta argentino. No dia seguinte, a orgia literária estava posta. Estes são poemas antigos, mas, há alguns dias, Franco enviou-me para recordarmos. Boa lembrança!

Cacto'S

Camila Marins 23/03/2007

Um grão algures, contra
minha contradição
do seu vácuo resistente, este cacto
é um curvo caractere
onde alinhar a espinha

e minha pele jamais será como a tua;
seu ângulo depressa,
coutado
à sobrevivência e à displicência
desta sombra liquefeita, destas cutículas
que inibem o facto: o fragmento
era esse o hino, esse acervo
de notas
sons

desafinados aqui, na irrelevância
de qualquer semântica

Os cactos refletem no cascalho, no
sussurro do eco. Jamais esquecem
sua panacéia:

vão resistir
vão nascer quase sem meu consolo

O cacto é
esse grão amargo, degustado
no micro do poro, bem
escondido? É.

Esquecido pelos insetos
se centrifuga de si; e a sua
rotação
é acto, negada ao plural.-





Cacto
Franco Rajer

Um grão algures, contra
minha contradição
no seu vácuo resistente, este cacto
é um curvo caractere
onde alinhar a espinha

e minha pele jamais será como a tua;
teu ângulo agudo,
espreitaà sobrevivência e à gratuidade
desta sombra liquefeita, destas cutículas
que inibem o fato: "o fragmento
era esse hino, esse acervo
de notas
sons

desafinados aqui, pelo calor
deformador da paisagem "

E o eco propagado no cascalho,
sussurra: "cactos, não esqueçam jamais
esta canção"
vão resistir
vão renascer quase mudos

"O cacto é
esse grão amargo, degustado
no micro-poro, semi
escondido?". É.

centrifuga-se de si; e a sua
rotação é ato, não procura o infinito

domingo, 26 de outubro de 2008

Semelhanças entre Kafka e meu cigarro

Semelhanças entre Kafka e meu cigarro

26/10/2008

Acordou assim: meio inconseqüente. Quase 9 da manhã. Entre papéis, borrões de tinta em suas mãos e roupas espalhadas. Sentou-se à beira da cama e enxugou sua boca ainda embebida por histórias notívagas. Olhou para o lado e seus borrões estavam por todos os lados, perdidos quase divergentes em paredes. Os papéis em branco, as paredes forradas e suas mãos manchadas compunham o cenário de seu quarto. E, mesmo nu, ajoelhou-se diante de seu criado-mudo. Que de mudo não tinha nada. Neste pequeno móvel de cerejeira, lustrado com um verniz que trazia consigo reflexos de outrora, havia um altar. E, diante deste móvel, cerrou os olhos e iniciou uma oração febril nada compreensível. Ficou assim: sussurrando metáforas, metonímias e outras figuras que se desenhavam em sua mente. Permaneceu em transe por quase uma hora. E quando, finalmente, resolveu abrir os olhos, assustou-se. Escuridão. Nada mais enxergava e, ainda de joelhos, jogou o corpo para o lado de modo a derramar-se no chão. Em posição fetal, chorou todos os seus versos. Sua arte lhe escapava, escorria entre lágrimas. E seus berros preenchiam todo o quarto e, aos poucos, toda a casa, como se invocassem deuses. Já era quase meio-dia quando seu pranto começou a cessar. Silencioso e sem visão, apenas lhe restou procurar ajuda, mesmo que titubeasse em relação aos outros. Rastejou pelo chão. Primeiro atravessou o tapete branco de seu quarto que sibilava algumas blasfêmias. Chegou ao corredor e, agora, seu corpo sentia o mármore frio flertar com cada membro. Na sala encontrou porta-retratos quebrados, vidro espalhado e folhas de Kafka espalhadas pelo chão. Ficou a pensar quem havia quebrado suas coisas, rasgado seu livro. Não entendia o que estava acontecendo. Lembrava-se de ontem com certa dificuldade. Havia tomado algumas poucas taças de vinho e tentava escrever algo. Lembrava-se da angústia, de seus bloqueios, de suas dores, de seus questionamentos. Lembrava-se que não queria mais escrever sobre ele mesmo. Lembrava-se que queria escrever histórias de outrem. Lembrava-se que queria escrever histórias de outrem sem que houvesse comparação com sua própria vida (mesmo que houvesse). Lembrava-se que estava preso. Preso em sua própria poesia. Lembrava-se que buscava a libertação. A libertação que sempre existiu em sua poesia. Lembrava-se dessa negação. Lembrava-se do mal que lhe acometera e nada mais conseguiria escrever. Não tinha poder algum sobre sua própria vida. Estava de mãos atadas, talvez com sua poesia, talvez com sua redenção. Confundiam sua vida com sua poesia. Inventava, inventava inúmeros personagens, escrevia usando a voz feminina e, mesmo assim, confundiam-se. Sabia que seu corpo estava se (con)fundindo com sua poesia e nada poderia fazer. Seu tronco gelado já não se movia e seus membros já quase paralisavam. Seu último suspiro foi seu último gozo. No mármore gelado, fez-se o seu próprio gozo. Padeceu ali, ao lado daquela porra toda e, em seu túmulo, apenas algumas breves palavras:

- “Aqui jaz uma história mal contada”.

Amém.




quinta-feira, 23 de outubro de 2008

INSÔNIA

Insônia

23/10/2008

A estética daquela cama encobria uma trama cheia de nós. Estavam ali, enrolados em desenhos de arlequim espalhado. Olhares infantis fuzilavam aquele retalho vagabundo e os corpos mal eram tocados: frios em sua relevância. Durante a madrugada fria, esperavam o lençol molhado de suor afligir seus corpos, pois ainda confiavam na sensação de um dorso quente que fervia em angústia e desejo. Mas apenas uma troca de sorrisos. Sim! A cumplicidade anunciava os nós. Nós: pequenos fragmentos expostos em fel. Talvez sonhos, talvez pesadelos. E, no limite da cama, em sua divisão quase egoísta, apenas pés se tocavam. E passaram anos flertando com polegares.



quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A SARJETA E A MEIA-CALÇA

A sarjeta lhe parecia mais quente que qualquer coito. Aquele meio-fio lhe lembrava sua vida: meia-vida. Sua meia-calça, ali, rasgada da virilha ao tornozelo revelava sua indisciplina. Aqueles olhos, ainda borrados com rímel, expeliam lágrimas de fim de noite. Ainda não sabia em quem confiar: em sua meia-calça ou em seu rímel. Tudo era difícil em seu duro existencialismo de fim de rua. Não sabia mais quem era. Apenas placas lhe apontavam o incerto. PARE, SIGA, VIRE À ESQUERDA. Tudo era uma dúvida. A única certeza que tinha: seu corpo não era mais imaculado. Estava invadido pelos ratos de bueiro e sabia que nem uma oração a salvava. Não que acreditasse em deuses, mas ainda tinha certa esperança. Em seus devaneios mais íntimos, não encontrava saídas, apenas ruas. Arrancou seus sapatos e, em seguida, sua meia-calça que escorregava entre coxas. E, neste mesmo meio-fio, arrancou sua vida. Enforcou-se em meias. Sim! Meias penduradas em postes!

22/10/2008

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

CUBA, O FURACÃO CHAMADO BLOQUEIO

Frei Betto

No próximo 29 de outubro, a Assembléia Geral da ONU, após ouvir o informe apresentado pelo secretário-geral, Ban Ki Moon, votará o projeto de Cuba visando à suspensão do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto à ilha do Caribe pelo governo dos EUA desde 1959.

Será a 17ª vez que a ONU tratará deste tema. Em 2007, dos 192 países-membros das Nações Unidas, 184 votaram a favor do projeto que pedia a suspensão. Infelizmente, suas resoluções não têm caráter obrigatório, exceto as do Conselho de Segurança.

O fato de a maioria dos países condenarem, por 16 vezes, o bloqueio representa um gesto de solidariedade à Ilha e uma derrota moral para a Casa Branca, cuja prepotência se evidencia por não ter a menor consideração para o que pensa a comunidade internacional, que repudia a hostilidade usamericana.

O bloqueio é o principal obstáculo ao desenvolvimento de Cuba. Ano passado, representou, para o país, prejuízo de US$ 3,775 bilhões. Ao longo dos 50 anos de Revolução, calcula-se que o total do prejuízo chegue a US$ 224,6 bilhões, levando em conta a desvalorização do dólar e suas flutuações no decorrer do tempo.

O bloqueio é um polvo com tentáculos extraterritoriais, violando o direito internacional, em especial a Convenção de Genebra, que o qualifica de genocídio. Empresas, bancos e cidadãos que mantêm relações econômicas, comerciais ou financeiras com Cuba sofrem perseguições. A exemplo do que fez a China durante as Olimpíadas, também o governo usamericano bloqueia sites da Internet relacionados com Cuba.

A muito custo o governo cubano tem conseguido abrir pequenas brechas no bloqueio, como ao comprar alimentos dos EUA.
As empresas vendedoras enfrentam gigantesca burocracia, sobretudo porque a comercializaçã o tem de passar pela intermediação de um terceiro país, já que o bloqueio proíbe relações diretas entre EUA e Cuba . O comprador é obrigado a pagar adiantado e não pode vender seus produtos aos usamericanos; os navios retornam vazios aos portos de origem.

Os recentes furacões Gustav e Ike provocaram muitos danos à Ilha. Áreas agrícolas foram devastadas, 444 mil moradias afetadas, das quais 67 mil totalmente destruídas. Com a alta dos preços dos alimentos no mercado internacional, Cuba só não está com a corda no pescoço graças à solidariedade internacional, inclusive da União Européia e do Brasil.

O governo cubano solicitou à Casa Branca uma trégua no bloqueio nos próximos seis meses, por razões humanitárias. Até agora, Bush mantém completo silêncio. Contudo, a máquina publicitária da Casa Branca trata de camuflar a omissão presidencial com uma série de mentiras, como a oferta de US$ 5 milhões aos cubanos vítimas dos furacões.

Ora, o que representa essa ninharia diante dos US$ 46 milhões que a Usaid recebeu este ano para financiar grupos mercenários dedicados ao terrorismo anticubano? E outros US$ 40 milhões foram liberados para manter as transmissões de rádio e TV contra o regime de Cuba .

Apesar de o bloqueio causar mais danos que todos os furacões que já afetaram Cuba, a nação resiste e, agora, se mobiliza em amplos mutirões para consertar os estragos causados pela natureza e aprimorar a produção agrícola, graças às recentes medidas que facilitam aos camponeses acesso às terras onde, outrora, se cultivava cana-de-açúcar. Além de ter no Estado um comprador seguro, os agricultores cubanos poderão vender diretamente ao consumidor.

Sem olhar para o próprio umbigo, Cuba reitera sua solidariedade internacional e envia médicos às vítimas dos furacões no Haiti , e mantêm médicos e professores em mais de 70 países, a maioria pobres.

A história é uma velha senhora que nos surpreende a cada dia: quem imaginaria, há um ano, que o socialismo cubano veria a crise financeira de Wall Street , e o Estado mais capitalista do mundo contradizer todos os seus discursos e intervir no mercado para tentar salvar bancos e empresas? Como fica o dogma da imaculada concepção de que fora do mercado não há salvação?


PS: Contribuições para compra de alimentos e remédios a serem remetidos às vítimas dos furacões em Cuba podem ser remetidas a: Associação Ação Solidária Madre Cristina, Banco do Brasil 4328-1, Conta 6654-0.



Frei Betto é escritor, autor de “A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Rocco), entre outros livros.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Diário de uma motorista – parte II – uma questão de gênero

13/10/2008

Não tenho nenhuma poderosa de Guevara, mas tenho dirigido um Gol 1.0 com direção hidráulica nas aulas da minha auto-escola. Nunca pensei que direção hidráulica fizesse tanta falta. Sábado fui treinar com uma solidária amiga e a direção me deu um trabalho... Desde o fim-de-semana avancei em alguns pontos, por exemplo: aprendi a direcionar os espelhos! Ah. Lembram-se que eu ia trocar de instrutor? Pois bem, não consegui, porque só havia horário disponível para o final do mês e, para não perder mais tempo, continuei com o mesmo. Hoje, começamos com o percurso que, por incrível que pareça, é a minha maior dificuldade. Baliza é o meu forte, faço e desfaço quantas vezes forem necessárias. No entanto, o percurso me aflige. Talvez eu tenha me contaminado pelo vício daqueles que já dirigem como: não parar em parada obrigatória, dar apenas uma olhadinha e seguir em frente. Se tem uma coisa que irrita meu instrutor é a subida. Sim! Eu não consigo embalar o carro o suficiente e na descida eu embalo. Tudo errado! Preciso segurar mais na descida e forçar na subida. Outra coisa: minhas paradas obrigatórias são muito bruscas, o corpo chega até o painel! Ou eu freio bruscamente ou vou devagar e não alcanço a visibilidade da rua e tenho que ficar soltando aos poucos para alcançar o ponto certo. Está difícil. Muito difícil. Lembro-me da minha primeira aula em que eu via mulheres saindo chorando das aulas práticas e eu só pensava: “Nossa, elas só reforçam a questão do gênero e do machismo”. Não! Ainda não chorei e nem vou chorar! Em hipótese alguma, mas, hoje, compreendo a angústia destas companheiras.

A maioria dos instrutores são homens, uns mais velhos e outros mais novos. Os mais velhos se dividem nas seguintes categorias: os senhores bem mais velhos parecem com avôs de tão calmos e pacientes e os de meia-idade mal-humorados estão interessados em terminar o quanto antes a aula (essa é a faixa do meu instrutor). Já os mais novos, se dividem entre paquerar as menininhas ou tratá-las mal, especialmente, se elas não forem tão atraentes e forem humildes. Pois é, mulheres de minha Campinas: estamos ferradas, mas não chorem! É perceptível o tratamento com os homens, principalmente, porque a maioria deles já entra sabendo dirigir e os instrutores respeitam os homens. É impressionante! Não sou daquelas feministas que queimam sutiã, mas sou feminista sim! E, com certeza, a auto-escola é um forte ambiente de opressão. Hoje, acho que fiz umas cinco balizas sem necessidade, porque essa manobra é muito fácil para mim, enquanto o meu percurso continua frágil. No fim da aula, já subindo a Marechal Carmona para ir embora, uma mulher me parou na esquina e perguntou:

- “Também saiu da aula?”

- “Sim. É sua última semana?”, perguntei.

- “Graças a Deus é minha última semana sim. Não agüento mais e acho que terei de pagar umas aulas extras, porque não me sinto preparada para o exame”

Eu, já feliz por encontrar uma confidente para partilhar minhas angústias de trânsito, começo:

- “Eu também não me sinto preparada, meu instrutor não passa nenhuma instrução. Estou com medo do percurso e blá blá blá”, contei-lhe algumas situações pelas quais já passei e ela também se identificou, mas o seu problema era a baliza e não o percurso.

Ela também dirige um Gol 1.0 e o seu instrutor é um homem que tem um pouco mais de meia-idade e grita de vez em quando. Antes de ir embora, algumas mulheres me abordaram na fila da presença e, ao também compartilhar meu martírio com elas, fui aconselhada a mudar de instrutor. Depois de explicar-lhes que não era possível, elas me estenderam um olhar solidário e compartilharam experiências comigo. Cada uma delas com uma história pior ou mais engraçada. Ficamos ali, a compartilhar em nossa identidade e, em nossos pensamentos, talvez permanecesse a seguinte vontade: instrutores realmente capacitados para lidar com alunos que não saibam sequer arrumar os espelhos ou instrutores sensíveis às causas femininas. Enquanto isso, nós decidimos em nossa confidência o seguinte: “Foda-se”. E, se alguém resolver nos maltratar, não hesitaremos em revidar.

“Que nada nos defina.
Que nada nos sujeite.
Que a liberdade seja a nossa própria substância”.

Simone de Beauvoir


domingo, 12 de outubro de 2008

Sonhos de Ogum

Pois bem, é chegado o dia. 12 de outubro: dia de nossa Senhora Aparecida. Para aqueles que não sabem, chamam-me Aparecida. Sim! Camila Aparecida Marins Alvarenga Theodoro. Podem acreditar, minha mãe adora nomes grandes e fez promessa para Nossa Senhora Aparecida. Um nome em sua eterna contradição. Quando criança, minha mãe obrigava-me a ir até a Basílica. Com o passar do tempo, o Saci substituiu Nossa Senhora e, por uma triste coincidência, em meu aniversário deste ano ganhei um São Jorge aveludado vermelho que ganhou espaço em minha cômoda. Este foi um dos presentes que mais me deixou surpresa. São Jorge fica bem à minha frente, iluminado pelos raios de alguma Lua ousada. E, às vezes, Ogum invade meus sonhos, impede meu sono e inquieta minha alma. Um dia, caiu-lhe a cabeça. Rolou pela cômoda até se esconder embaixo da cama. Cabeça de Ogum separou-se do corpo e aquele que era vermelho, transformou em pó. Apenas gesso. Foi colado, mas Ogum nunca mais fora o mesmo. Não me ajoelho em preces, mas caio desvairada em teu samba. Salve Jorge de Capadócia!


Medalha de São Jorge

Moacyr Luz e Aldir Blanc


Fica ao meu lado, São Jorge Guerreiro
Com tuas armas, teu perfil obstinado
Me guarda em ti, meu Santo Padroeiro
Me leva ao céu em tua montaria
Numa visita à lua cheia
Que é a medalha da Virgem Maria
Do outro lado, São Jorge Guerreiro
Põe tuas armas na medalha enluarada
Te guardo em mim, meu Santo Padroeiro
A quem recorro em horas de agonia
Tenho a medalha da lua cheia
Você casado com a Virgem Maria
O mar e a noite lembram a Bahia
Orgulho e força, marcas do meu guia
Conto contigo contra os perigos
Contra o quebrando de uma paixão
Deus me perdoe essa intimidade:
Jorge me guarde no coração
Que a malvadeza desse mundo é grande em extensão
E muita vez tem ar de anjo
E garras de dragão

----

sábado, 11 de outubro de 2008

Entre Camélias e Tulipas

Camellia Japonica

Resto De Mim

Voz: Maria Bethânia

Composição: Roberto Mendes/ Ana Basbaum

Quanta coisa ainda por dizer
Do meu amor imenso por você
Quantas palavras que ficaram no ar
Suspensas pra sempre
Perdidas no mundo sem encontrar você

O susto foi grande
O medo passou
Agora, o vazio me ocupou
Queima meu corpo, rompe meus sonhos
Mas sei que não quero me enganar de novo

Você arrancou os frutos sadios
Você entornou meu coração
O inverno foi longo
As noites sem fim
Meu bem, meu bem
O que fez com o resto de mim
Procuro razões em seus olhos escusos
Só vejo a mentira escondida no fundo
Você fez sangrar meu coração
Feriu a si mesmo
Pensando que não.



Sobre um antigo amor



quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Conselho de um amigo



"É que, por enquanto, a metamorfose de mim em mim mesma não faz sentido. É uma metamorfose em que eu perco tudo o que tinha, e o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com seus planetas e baratas"


Clarice Lispector

Meia-volta

09/10/2008

Poucas coisas tendem a me irritar. Ultimamente, muitas. Uma delas chama-se: auto-escola. Depois de passar por um exame médico ridículo em que basta você dizer seu nome para passar (ou quase isso), um curso teórico comandado por uma ‘show woman’ com seu texto decorado, sem sair do script, tenho que agüentar as aulas práticas. Foram poucas as vezes que peguei a direção de um carro antes, mas alguma noção eu tinha.

Primeiros dias de aula, pergunto ao instrutor:

- Como eu sei se os espelhos estão corretos?

- Ah, com o tempo você aprende.

Fiquei a pensar: “Ajusto da melhor maneira para eu enxergar sei lá o quê e saio dirigindo. Mas e se o delegado disser que não está do modo correto? Ah, com o tempo eu aprendo...”

Mais perguntas:

- Como eu tenho noção do espaço entre os carros e a guia?

- Ah, com o tempo você se acostuma, enquanto isso se não estiver bem eu aviso. (avisa porra nenhuma, o cara invade meu espaço e mexe a direção por mim!)

Aula marcada para começar às 07h50 e o cara só começa de fato 15 minutos depois e me libera 10 minutos antes. Sem contar que, durante o percurso, ele lê o “Já” (um jornal popular de Campinas, para quem não sabe) e circula anúncios de empregos, enquanto eu não sei de quem é a preferência na próxima rua. Hoje, um taxista muito simpático, ao puxar assunto comigo, me ensinou como funciona: “É fácil menina, quando tiver placa e final de rua, você pára”.

Entendo que o instrutor é um profissional explorado com um trabalho extremamente precarizado, mas um pouco de comprometimento faz bem. Até agora, não reclamei e tentei entender a insatisfação deste trabalhador com a vida. Mas paciência tem limite... Devo estar em minha quinta ou sexta aula e não sei sequer arrumar os espelhos. Evitei a troca de instrutor, mas tal atitude é necessária. Tentei na base da conversa amigável contornar a situação, mas é impossível. Hoje, foi a gota d’água. O dito cujo abre o porta-malas e começa a tomar café-da-manhã, enquanto eu fico ali tentando fazer uma baliza. Quantas voltas para a esquerda? Qual o ponto na janela direita? Deixo o volante reto? Encostou na calçada? Isso não foi o pior, foram os berros. Como eu posso dirigir corretamente se eu não tenho instruções??? O homem começou a berrar porque eu estava acelerando na descida e diminuindo a velocidade na subida. Tomava meu volante com agressividade para encaixar o carro na posição correta da rua. Impaciência não combina comigo. E muito menos maus tratos. Decisão tomada: outro instrutor já e algum amigo para me ensinar como ajustar os espelhos!

Confesso: prefiro ser passageira nos veículos! Ai, que merda!

Ensaio sobre a cegueira

09/10/2008


Pés imundos rastejam em chão desvairado
nunca pensei que o apagão seria branco em sua contradição
Saramago deu a linha
segue teu rumo
e mergulha em um poço de pura escatologia
abraça teu inferno,
ensaia teus melhores passos, pois
o céu é logo ali, onde tuas vísceras estão espalhadas pelo caminho

mãos sem permissão percorreram teu corpo
e você consentiu em tua dependência
pérolas aos porcos
apenas peixe morto

assiste no camarote: o caos
sua melhor visão
alucinações percorrem teu corpo
talvez suicídio

mas olhos
olhos

tua retina ainda brilha, talvez mais escura que a dos outros
mero clarão em sua contradição
e ainda me pergunta: “-dignidade?”

somos assim: iguais em nossa dependência
rivais em nossa sobrevivência
animais em nosso sexo
piores em nosso brio
famintos em nosso desejo
pérolas aos porcos
apenas peixe morto

escorrega em tua merda
fica nu diante desta platéia
também nua

open your eyes

no more

-------

Depois de assistir ao filme "Ensaio sobre a cegueira"

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Ressaca Eleitoral



"Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas, demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas"

(Darcy Ribeiro - 1922 - 1997)



sábado, 27 de setembro de 2008

Tempos

27/09/2008


não tenho tido tempo
o tempo tem me tido
metido nesta vala comum das horas
metido a Vírginia Woolf
talvez até metido a Proust

não tenho tido tempo
o tempo tem me tido
me dito horas que passam
me dito aquilo que não foi
o que passou?
as horas
Ah, Vírginia!

não tenho tido tempo
o tempo tem me tido
esse abismo tem me engolido
mas as horas, um dia, terminam.
foram meses de flerte com o relógio
o tempo continua e eu?
o que será do tempo?
o mesmo:
passados, pretéritos
perfeitos, imperfeitos ou mais que perfeitos


sexta-feira, 12 de setembro de 2008

MANIFESTO EM DEFESA DA LIBERDADE DE OPINIÃO E PELA RESPONSABILIDADE DO JORNALISTA


“A ética não é uma condição ocasional
e deve acompanhar sempre o jornalismo,
como o zumbido acompanha o besouro”,
Gabriel Garcia Márquez, jornalista e escritor


Em um dos momentos mais sombrios da história deste país, um punhado de militares, aliados aos interesses do grande capital e da elite retrógrada e autoritária, impôs à sociedade brasileira um período de restrição às liberdades individuais, políticas e sociais. Dizer a verdade, denunciar a truculência do regime militar, enumerar os problemas sociais brasileiros ou, simplesmente, ter uma opinião contrária a dos dirigentes do país era sinônimo de prisão, atentados contra a vida ou até mesmo a morte.

Esse momento foi superado e esperamos que jamais se repita neste país ou em qualquer lugar do mundo. Por outro lado, infelizmente, o sentimento autoritário, arrogante e retrógrado de parte da sociedade brasileira se mantém.

Na manhã do último dia 26 de agosto, no jornal Gente da Rádio Bandeirantes AM de Campinas, o comentarista José Arnaldo Canesim acompanhado pela jornalista Zezé de Lima, explicitou esse lado autoritário, arrogante e retrógrado. Ignorando a história deste país, e até mesmo desrespeitando a opinião alheia e ridicularizando a grande personalidade que é Millôr Fernandes, José Arnaldo deu uma declaração infeliz que revela seu completo descaso com a história e o significado dos Anos de Chumbo e o sentido de “Oposição”. Oposição, José Arnaldo, é defender a liberdade de opinião; a liberdade de não se sujeitar às vozes autoritárias do setor retrógrado e elitista que você representa. Oposição é não se sujeitar às forças que querem calar as vozes discordantes. Isso é a defesa da Democracia.

Millôr Fernandes soube representar muito bem essa defesa da Democracia ao afirmar: “Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.

Ao tecer comentários depreciativos à colega de profissão Camila Marins, José Arnaldo ignorou o Código de Ética do Jornalista e não questionou a conduta profissional, apenas a insultou ao vivo em programa de rádio. Talvez tenha feito tal insulto exatamente por não poder criticá-la por sua conduta profissional, que Camila Marins executa de forma séria, honesta e responsável. Camila Marins sabe de sua responsabilidade enquanto assessora de imprensa, como diz no artigo 4º do Código de Ética do Jornalista: “A prestação de informações pelas instituições públicas, privadas e particulares, cujas atividades produzam efeito na vida em sociedade, é uma obrigação social”.

Ao contrário, José Arnaldo não respeita os limites de sua responsabilidade enquanto formador de opinião, ao tentar ridicularizar a defesa da Democracia feita por Millôr Fernandes e ao insultar sua colega de profissão Camila Marins. José Arnaldo, enquanto representante de uma das maiores emissoras deste País, deveria saber que objetividade é um mito, ou seja, um jornalismo neutro significa um pout-pourri de hipocrisia, uma vez que o jornalista assimila os fatos a partir de sua própria subjetividade. Exemplo disso é a decisão do que se torna notícia ou não. Ainda que seja uma tradição histórica e cultural, inclusive citada nas universidades, a neutralidade não pode ser vendida aos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas como verdade absoluta, pois não o é. De uma forma ou de outra, o jornalista está intrinsecamente ligado às matérias que produz e, por isso, afirmamos que não existe jornalista neutro. Exigimos que os órgãos de classe do Jornalista tomem as providências cabíveis, para indenizar moralmente Camila Marins e impedir que novos ataques à nossa história se repitam. O direito de resposta à Camila Marins e a retratação pública de José Arnaldo são ações mínimas que aguardamos.

A conquista de nossa frágil Democracia não pode ser um elemento para que a liberdade de opinião seja utilizada de forma irresponsável, principalmente quando se trata dos jornalistas, que têm um papel fundamental na consolidação do regime constitucional.

A fiscalização do poder público e da ética profissional são obrigações a qualquer pessoa cidadã que deseja construir um país cada vez mais democrático e que aceite toda a diversidade de opiniões. É isso que faz, enquanto cidadã, Camila Marins. Enquanto profissional competente e ética executa seus compromissos com rigor e elegância, não se sujeitando às vozes autoritárias que tentam desrespeitá-la. Camila Marins, ao contrário de José Arnaldo, busca construir uma sociedade justa e democrática, que respeite a diversidade de opiniões e idéias. O respeito à história, à diversidade de opiniões, às críticas é elemento indissociável de qualquer sociedade que queira construir um futuro melhor.

Nós, que aqui nos manifestamos, repudiamos o desrespeito, a ofensa, a arrogância e o autoritarismo do jornalista José Arnaldo. Sabemos que não representa a expressão da maioria dos profissionais dessa área e que, exatamente por isso, não pode se manter impune.

· José Arbex Jr.
Jornalista e autor dos livros Showrnalismo - A Notícia Como Espetáculo e O jornalismo canalha, da editora Casa Amarela. Trabalhou vários anos na Folha de S. Paulo, quando chegou até editor da editoria Mundo. Arbex foi editor-chefe da do jornal Brasil de Fato, criado no Fórum Social Mundial de Porto Alegre. É doutor em história social pela Universidade de São Paulo (USP) e professor de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atualmente Arbex é editor especial da revista Caros Amigos (editora Casa Amarela), uma das mais importantes revistas de esquerda do Brasil;


. Plínio de Arruda Sampaio
É diretor do jornal Correio da Cidadania, veículo de imprensa independente da cidade de São Paulo, desde 1996. Professor, promotor, advogado, duas vezes deputado, Plínio também é um histórico dirigente político deste País.

· Mário Augusto Jakobskind
Jornalista e Escritor. Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus, repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente da Rádio Centenária de Montevideo, além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989 a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988 a 1989). Atualmente é correspondente do semanário uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato. É autor, entre outros, dos livros América Que Não Está na Mídia (Adia, 2006), Dossiê Tim Lopes - Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América Latina - Histórias de Dominação e Libertação (Papirus, 1985) e Cuba - apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba (Ato Editorial, 1986).

· Douglas Mansur
Mestre pelo Programa de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo PROLAM/USP, Filósofo, Professor Universitário de Fotojornalismo do Curso de Especialização do Núcleo José Reis - ECA/USP e da Oficina de Projeto da PUC-SP. Integrante do NERA (Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária) da UNESP/ Presidente Prudente (SP). Membro do CEDECA- Interlagos-SP Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Interlagos Repórter Fotográfico.

· João Zinclar
Repórter Fotográfico;

· Angelo Emílio da Silva Pessoa
Doutor em História Social pela Universidade Estadual de São Paulo - USP;
Professor de História da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul;

· João Alexandre Peschanski
Editor da Boitempo; integrante do Comitê de Redação da Revista Margem Esquerda – Ensaios Marxistas; Mestrando em Ciência Política pela USP; trabalhou como editor do Jornal Brasil de Fato;

· Marcelo Buzetto
Professor da Universidade Metodista de São Bernardo do Campo e na Fundação Santo André; Doutorando em Ciências Sociais pela PUC/SP; Núcleo de Estudos Latino Americano – NELAM

· Luiz Bassigio
Secretário do Grito dos Excluídos Continental;

· Hamilton Octavio de Souza
Jornalista e Professor da PUC/SP;

· Igor Ojeda
Jornalista; Correspondente do Brasil de Fato em La Paz (Bolívia);

· Angela Mendes de Almeida
Coletivo Contra a Tortura; Página Observatório das Violências Policiais – SP;

· Vito Giannotti
Núcleo Piratininga de Comunicação;

· Givanildo Manoel da Silva
Coordenador do Fórum Estadual de Direitos da Criança e do Adolescente;

· Heder de Souza
Secretaria Direitos Humanos PSOL/SP;

· Carlos Alberto Lobão Cunha
Professor do Instituto de Geociências da Unicamp;

· João Pedro Stédile
Direção Nacional do MST;

· Alípio Freire
Jornalista do Jornal Brasil de Fato;

· Nalu Faria
Psicóloga; Coordenadora geral da Sempreviva Organização Feminista (SOF) e integrante da Secretaria Nacional da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil.

· Heleno Correa Ficho
Professor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp;

· Flávio Higuchi
Arquiteto;

· Valéria Medeiros de Castro
Coletivo de Mulheres Trabalhadoras do Vale do Paraíba;

· Edson Antônio Albertão
Vereador e candidato a Prefeito pelo PSOL – Guarulhos / SP;

· André Ferreira
Geógrafo pela Unicamp;

· Francisco Carneiro de Fillipo
Economista; Mestre em Economia / Instituto de Economia da Unicamp;

· Fábio Marvulle Bueno
Economista; Mestre em Economia / Instituto de Economia da Unicamp;

· Tatiana Merlino
Jornalista do Jornal Brasil de Fato;

· Altamiro Borges
Jornalista; Membro do Comitê Central do PCdoB;

· Iracema Moura

· Ortega
Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp;

· Ivan Valente
Deputado Federal PSOL / SP;

· Carlos Giannazi
Deputado Estadual PSOL / SP;

· Raul Marcelo
Deputado Estadual PSOL / SP;

· Reginaldo Euzébio
Jornalista;

· Fórum de Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais, Bissexuais (LGTTB) de Campinas

· Fábio Guzzo
Jornalista, sociólogo e funcionário Unicamp;

· Eudes Lima
Jornalista;

· Denis Prado Forigo
Camará Comunicação e Educação Popular;

· Cristina Alvares Beskow
Camará Comunicação e Educação Popular;

· Jefferson Vasques Rodrigues
Camará Comunicação e Educação Popular;

· Bruno de Oliveira Pregnolatto
Advogado;

· Paulo Bufalo
Engenheiro, professor, vereador e presidente do PSOL Campinas;

· Marcela Moreira
Vereadora PSOL Campinas e membro do Conselho Editorial do Jornal Brasil de Fato;

. Inês Paz
Vereadora PSOL Mogi das Cruzes

. Cordeiro
Vereador PSOL Carapicuiba

· Denise Simeão
Jornalista e coordenadora de projetos da produtora COT (Centro Organizativo dos Trabalhadores);

. Lucas Vega
Curta-metragista, Superoitista, diretor do Festival de Cinema Super 8 de Campinas, Cinegrafista e Professor.

. Leonardo Bianchin Betti
Diagramador

. Temístocles Marcelos
Secretário-Executivo do FBOMS - Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento e Coordenador da CNMA-CUT

. Bruno Ribeiro
Jornalista

. Diego Riquelme
Produtor de TV e vídeo

. Elcio de Souza Magalhães
Engenheiro Agrícola, educador popular, formador de economia solidária, militante do movimento popular, PSOL, corrente Guerilha Popular Aurora Socialista, mandato popular e socialista Marcela Moreira

· Carolina Cristina Mantovani Ferreira
Jornalista, poeta e editora de vídeo;

. Lucas Abeid Pontes
estudante de jornalismo, integrante do coletivo Vídeo Kulatra e militante da Guerrilha Popular Aurora Socialista.

. Alexandre Baquero Lima (Ari)
Bancário da Nossa Caixa

. André de Oliveira Guerrero (PLOC)
mestrando em Química na Unicamp

. Artur Monte Cardoso
estudante de Economia da Unicamp

. Bruno Modesto Silvestre
estudante de Educação Física da Unicamp

. Caio Matsui
estudante de Economia da Unicamp

. Carlos Augusto Peres (Carlão)
Educador esportivo

. Carolina Barboza Gomes Figueiredo Filho (Carolzinha)
estudante de Ciências Sociais da Unicamp

. Ciro Matsui Jr.
estudante de Medicina da USP

. Cristiane Anizéti dos Santos
estudante de Direito da ESAMC

. Daniel Gomes Paes
estudante secundarista

. Daniel Monte Cardoso (Biltre)
estudante de Economia da Unicamp

. Danielle Iwamamura Brandenburgo Consolino
estudante de Midialogia da Unicamp

. Diana Nascimento Moraes Novaes
estudante secundarista

. Estevan Almeida Thiesen
estudante de Filosofia da Unicamp

. Felipe Monte Cardoso (Belém)
Médico

. Gabriela Chiareli de Sousa
estudante de Pedagogia da Unicamp

. Gabriela Menegatti
estudante de Fonoaudiologia da Unicamp

. Gislaine Cristina Oliveira
funcionária da Unicamp

. Guilherme Sarausa de Azevedo
estudante de Engenharia Civil da Unicamp

. Heitor Martins Pasquim
mestrando em Educação Física na USP

. Iuriatan Felipe Muniz
Técnico em Computação e estudante de Ciências Socias da Unicamp

. Kássio do Nascimento Moreira
estudante secundarista

. Larissa Nadine Ribka
médica

. Leonardo Simões Freire
estudante de Economia da Unicamp

. Marcelo José Azevedo
engenheiro de alimentos

. Mariana Conti Takahashi
cientista social e candidata a vereadora pelo PSOL Campinas

. Mariana Jafet Cestari
professora de Língua Portuguesa e estudante de Lingüística

. Mariana Leite Figueiredo
Cientista Social e estudante de Direito da FACAMP
Mariana Zuaneti Martins (Mari FEF) - funcionária da Unicamp estudante de Educação Física da Unicamp

. Marina Mitie Kawanishi
professora de Educação Física

. Michel Fernando Pena
estudante de Química da Unicamp

. Natalia Cristina Soares de Souza (Pepa)
estudante secundarista

. Patrícia Rocha Lemos (Pat)
funcionária da Unicamp

. Paulo Alécio Nied Júnior
estudante de direito da FACAMP

. Paulo Eduardo de Lima Gouveia
membro da Executiva Municipal do PSOL Campinas

. Pedro Alberto Vicente de Oliveira
estudante de Geografia da Unicamp

. Potiguara Mateus Porto de Lima
professor de Biologia

. Ravi Nascimento Novaes
estudante secundarista

. Renata Guelfi Rossini
estudante de Pedagogia da Unicamp

. Ricardo Costa (Xisinho)
estudante de Educação Física da USP

. Ricardo Vieira Cioldin
membro da Executiva Municipal do PSOL

. Rodrigo Alves do Nascimento (Digão)
estudante de Letras da Unicamp

. Ronald Alexandre Giraldelli
PSOL Campinas

. Sérgio Henrique de Oliveira Teixeira
estudante de Geografia da Unicamp

. Thalita Cristina Souza Cruz
estudante de Letras da Unicamp

. Thamiris Raquel Matias
estudante de Pedagogia da Unicamp

. Vitor Augusto Monteiro Pelegrin
estudante de Geografia da Unicamp

. Reginaldo Alves do Nascimento
estudante de Letras da Unicamp

. Elisa Coelho
estudante de letras da Unicamp

. Lunara Francine
estudante secundarista

. Nôva Brando
estudante de Pedagogia da Unicamp

. Denise Vasques
estudante de Saneamento Ambiental da Unicamp

. Rodolfo José Viana Sertori
estudante de Construção Civil da Unicamp