sábado, 23 de maio de 2015

Subterrânea

Subterrânea
18/5

Esquinas famélicas
Curvam por aí uma geometria
Analítica, ela subterrânea
Compreendeu a solidão
Desta vez, de substantivo a adjetivo
Era Verbo, era drama
Em seus desejos, o pronome
pura inspiração, entre papelões
e meio fio bolorento
pediu o pão
Dividiu o corpo, era Verbo
Nada definido em gênero
Apenas, subterrânea

Vai, idade

Vai, idade
15/5/2015

A idade chega
Vai idade
Vaidade
Amanhece no bar
Você, na cama
Vai, idade
Amanhece na cama
Você, nu
Bar
Vai, idade
Diz não
Perde a paciência
Entre pernas
Vaidade
Nu, o asfalto range
Raiva, dor e ódio
Vai, idade
Enche esse copo
Agora, pela metade

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

“Nossa luta contra a transfobia não se resume a um único dia de visibilidade. É uma luta árdua e diária”, Indianara Siqueira

 Visibilidade trans: o que comemorar?

#JeSuisTravesti #JeSuisTrans



29 de janeiro é dia nacional da visibilidade transexual. Quantas pessoas trans e travestis você conhece que estão no mercado de trabalho, nas universidades e nos espaços de disputa política? Podemos contar nos dedos a invisibilidade trans na sociedade e afirmada pelo Estado. No ano passado, por exemplo, apenas 95 travestis, transexuais e transgêneros inscreveram-se para o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), utilizando o nome social, de acordo com informações do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Por outro lado, segundo o movimento TransRevolução, em 2014 foram contabilizados 120 assassinatos de pessoas trans no Brasil. A superação dessa dicotomia só será possível com cidadania, políticas públicas e igualdade de direitos e oportunidades. Presidenta do TransRevolução, prostituta e trans, Indianara Siqueira fala sobre preconceitos, a incansável e corajosa luta pela visibilidade trans e os sonhos para um futuro com respeito e igualdade.  

Como surgiu o 29 de janeiro?
Essa data é significativa para o movimento de travestis e transexuais, pois foi em janeiro de 2004 que 27 pessoas trans lançaram, no Congresso Nacional, a campanha nacional: “Travesti e Respeito, já está na hora dos dois serem vistos juntos: em casa, na boate, na escola, no trabalho, na vida”. Desde então, a data estabelece um sentido político de luta pela igualdade, respeito e visibilidade de pessoas trans. Entidades de todo país saem às ruas ou ocupam espaços políticos no exercício da cidadania, processo contínuo do qual pessoas trans são alijadas pelo preconceito, pela discriminação e violência. Infelizmente, o movimento trans tem mais reivindicações e denúncias a comemorações. É uma data que reafirmamos: "Contra a transfobia, a nossa luta é todo dia!".

Como é o atual quadro de violência e discriminação das pessoas trans no Brasil?

O Brasil lidera o ranking de violência homofóbica e no mundo é o país onde ocorrem mais assassinatos de travestis e transexuais. O México é o segundo colocado do ranking e, ainda assim, o Brasil contabiliza quatro vezes mais mortes do que este. O número de travestis e transexuais que são assassinadas pode ser ainda maior, pois de acordo com o Grupo Gay da Bahia (GGB), que há três décadas realiza o levantamento dos crimes homofóbicos no país, os crimes contra pessoas trans são subnotificados. Em geral, são contabilizados como mortes de homossexuais, inviabilizando políticas públicas e visibilidade social. Para se ter uma ideia do problema, a expectativa de vida de uma travesti e transexual brasileira gira em torno dos 30 anos, enquanto, em média, a expectativa de vida de um brasileiro é 74,6 anos segundo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


E a inserção no mercado de trabalho?
Estima-se que 90% das travestis e transexuais brasileiras se prostituem atualmente no Brasil. Esta é uma proporção alarmante, porque nunca houve 90% de um grupo de pessoas prostituindo-se para viver, nem na história do Brasil, nem no mundo. Só mesmo travestis e transexuais. Em termos comparativos, apenas 95 travestis, transexuais e transgêneros inscreveram-se para realizar o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), utilizando o nome social em 2014. Contudo, foram 120 assassinatos (Fonte: TransRevolução) desse mesmo contingente populacional no mesmo ano. Onze é o número que separa uma realidade da outra. Podemos dizer que, praticamente, uma geração de Enem morre por ano.



Agora, em relação à cirurgia acompanhamos uma burocratização e enorme violência institucional. Como você avalia?
Apenas no Estado São Paulo, há uma fila de 3.200 pessoas que desejam realizar a cirurgia de transgenitalização, mas somente uma cirurgia é realizada ao mês, ou seja, 12 cirurgias ao ano. Quem entrar na fila agora terá que esperar 266 anos para realizar esse procedimento cirúrgico pelo Sistema Único de Saúde/SUS no Brasil. O Hospital Pedro Ernesto (HUPE), no Rio de Janeiro, que também realiza esse procedimento, está fechado para inclusão de novos pacientes desde 2013 e atende de forma precária. Some tudo isso ao não reconhecimento das identidades trans, ao abandono familiar, a evasão escolar, a precarização laboral, a exclusão do mercado de trabalho e marginalização.


Sabemos a dificuldade de aferição dos casos de assassinatos e violência. Por que isso acontece? O disque 100 é efetivo?
Porque travestis e transexuais não são de fato. Então, quando somos agredidxs ou mortxs é noticiado ou registrado, como: "Homem vestido de mulher" ou "homossexual", pois o Estado não nos reconhece legalmente enquanto travestis/transexuais/transgêneros. Nesse caso, legalmente quem morreu foi o homem ou a mulher que foram declarados no nascimento. O disque 100 é só pra estatísticas mesmo.


As Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) estão preparadas para casos de violência a pessoas trans?
Bom, a DEAM não está preparada nem pra atender mulheres cisgêneras [pessoas que foram designadas com um gênero ao nascer e se identificam com ele], então imagina trans. Mas temos uma recomendação agora para que as DEAMS do RJ, ao menos, estendam a lei Maria da Penha para mulheres transexuais, que se declarem como tal, ou seja, redesignadas ou estejam no programa pra operar (não para as que se declaram travestis). O Estado, na realidade, é o que mais nos violenta não reconhecendo nossa identidade de gênero nem como nos definimos ou declaramos. Poucos agentes nos destinam tratamento adequado.


Que políticas públicas são fundamentais para a visibilidade trans? Como enfrentar e transcender imposições normativas e binárias?
O mais importante seria a aprovação do projeto de lei de identidade de gênero João W. Nery de autoria do deputado federal Jean Wyllys ou a sanção do PL 72/2007, que já se encontra aprovado no legislativo em Brasília e é um adendo à lei 6015 de 1973. Isso seria um avanço para que as pessoas trans tivessem uma inclusão social, na educação principalmente. Para enfrentar situações normativas/binárias é justamente quebrando regras dessas situações, não se deixando enquadrar para poder existir, mas sim existir enquanto ser humano, pessoa de direito e sendo, assim, respeitado.


Como você avalia a atuação dos meios de comunicação na afirmação de estereótipos e preconceitos?
Os meios de comunicação reforçam esses estereótipos e violentam pessoas trans através da multiplicação desses estigmas e preconceitos. A maioria das notícias veicula "Homem vestido de mulher" ou "homossexual", sem considerar identidade de gênero e cidadania trans.


Teremos o parlamento mais conservador de todos os tempos. Como fortalecer as pautas dos movimentos sociais diante de tantos ataques?
Mostrando ao parlamento nas ruas, notas de repúdios/manifestos o nosso descontentamento. Só unidos nas vozes das ruas mostraremos nosso descontentamento.


Na minha opinião, a transfobia é um dos mais graves problemas sociais justamente por sua invisibilidade. Além de políticas públicas, qual o papel de solidariedade do conjunto da sociedade, dos movimentos sociais e populares, e movimentos de trabalhadorxs em geral?
Escutar as reivindicações do movimento trans e se unir sem quererem nos silenciar "achando que sabem o que é melhor pra nós" e nos emprestando e colocando à nossa disposição seus aparatos e, principalmente, multiplicando nossas vozes. Por isso, afirmamos que a nossa luta contra a transfobia não se resume a um único dia de visibilidade, mas é uma luta árdua e diária em que as poucas conquistas são muito comemoradas. Mas queremos mais: queremos o reconhecimento das nossas identidades de gênero, queremos inclusão social, queremos direito à educação, queremos ter chances no mercado de trabalho.


A prostituição ainda sofre ataques moralistas e é criminalizada pela sociedade e até por setores progressistas do campo da esquerda. Qual a sua opinião? Qual a importância do projeto intitulado Gabriela Leite?
A prostituição nada mais é do que sexo em troca de dinheiro. A importância do Projeto é justamente nos tirar da marginalidade e os nossos prestadores de serviços também, os ditos "cafetões/cafetinas", que também sofrem um estigma e acabam sendo explorados por policiais corruptos e milícias, justamente por viverem na ilegalidade. O PL não resolveria todos os problemas, mas ajudaria muito a diminuí-los.




Entrevista: Camila Marins
Revisão: André Vieira

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Nu, Natal

No natal
Poema nu
Concreto
Nu, natal,
Muito prazer
Sinos onomatopeias
Tudo sempre igual
Nu, pernil, ossos e fígado
Quem me dera uma história assim:
Nua e crua!
Sem Rivo, sem marcas, sem tarjas
Apenas, nu
25/12/2014

A volta

A volta
Faz um S, hashtag
Circula a cintura
Volta o bambolê
Vou até o final e desisto 
De você!
Afinal, a vida é pura ficção!
Nenhuma verossimilhança
Restos de uma ceia
Poema 25/12

domingo, 23 de março de 2014

sussurro para Leminski

- 23/03/2014
sacia minha fome
sou entranha, nada sua
preta pele famélica
vem e sussurra em dó
poesias de Leminski
sou entranha, quase sua
estranha

quinta-feira, 20 de março de 2014

autonomia

Autonomia é princípio para libertação, que exige, em dado momento, choque! Espelho em cacos, entre rupturas e escândalos de si!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

sobre afeto - 17/2/2014



para caminhar, me basta afeto!
arranca sua marra
e vem pra minha farra.
Sou Baco, sou vinho
queima roupa
mostra peito
Sou livre, sou amor
para você, tenho braços e abraços
Sou Medusa, sou polvo
me basta afeto!
sinto o gosto de corpos
seu, meu, nosso
lambe a porra da posse
e se lambuza com hipocrisia
Vem, vem! Sou Baco
Arranca a roupa e seu gênero

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A rapidinha da Lapa em histeria coletiva

- 9/2/2014

O apartamento fervia entre quatro espremidas paredes. Andava de um lado para o outro lutando contra sua teimosa ebriedade. Era uma quarta-feira e tinha uma agenda cheia pela frente: reunião antes do trabalho; trabalho; 11 textos pela frente; metade de um livro para terminar; pilates, duas reuniões mais e dezenas de diálogos pobres para enfrentar. Em mente: férias em algumas semanas. Enquanto isso, o apartamento a estrangulava; apertava tanto sua jugular que mal respirava. Principiava exercícios de meditação, embora sua concentração tenha se tornado mero exercício paradoxal. Contava os quadrados de seu piso, enquanto cores transversais pintavam suas paredes. O gato balançava o rabo e comia com garfo e faca um aipo com mostarda preta. Pensava na quantidade de porra de seu namorado e em quantas mulheres mais ele andava comendo. Não. Praticava orgias em propagandas de ônibus. Queria ser motorista. Tomou coragem e desceu para a rua em tentativas de respiração. Apenas cu. Inspirava e expirava. Procurava Fridas nas esquinas, e nem sinal de Rivera. Galeto no boteco da esquina e papeação com vizinho. Cerveja vai, coxinha desce. Asas de frango voam?

- Tudo na vida é obscenidade.
- Não. A família é o berço da perversidade.
- Ei, vocês dois ai, acreditam no toplessaço?

Desce a mulher que senta e entorna o copo. Pergunta para o companheiro:
- Por que eu não posso?

Não só pode, como deve. Em seus deveres de gênero, arrancou a blusa e ficou ali bebendo cerveja, falando sobre política e surrealismos baratos. Ainda incitaram a outra mulher a tirar.

- Tirar a blusa é ato político, e não para o seu pau ficar duro, punheteiro de merda.

O bar nega cerveja a essa mesa obscena, lasciva e perversa. Tão adjetivada como seu Verbo. Caminham pelas ruas da Lapa, entre Ubaldino e Mem de Sá. Sentam em outro boteco. Homens caralho arrancam gargalhadas e celulares para fotografar. Em cada uma das mesas, a pergunta traça a língua:

- Peito tem graça?

Senhoras de meia idade chegam perto da mesa e em toda a solidariedade arrancam a blusa em menos de três segundos.

- Rapidinho, minha filha.

Sorriem diante da rapidinha da Lapa.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

dó em tempos de bemol

Há tempos penso num poema
Há tempos flerto com um poema
Há tempos, há ânus
que inspiro esses versos
para você, não
para nós
o nó do
verde abacate
nódoa
amarelo manga, porra
dó e toca para você
para nós
o bemol rebaixado

4/2/2014

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

insônia

a insônia é a companheira mais solidária! silêncio que conforta, silêncio, silencio. Do Verbo ao Cio.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Origem

- 13/1/2014 - para Erica Leonardo

Qual a sua antropologia?
me conta seu fado
canta seu folk com sotaque alemão
mais fácil comer a avó
a origem dos males
sua bruxa, Anthropos!
arranca logos
e cheira seus primitivos inventados
pensa, fétido
a imaginação construída do ser
qual orifício te apetece?
vai e enfia dedo no cu
de repente, o advérbio grita
ou quem sabe o Verbo de seu caralho:
essa sim, pura identidade: sua puta!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

existem tempos. tempos. exagerado silêncio de um descanso: equilíbrio!

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Feliz Natal

Tapem os narizes!
Merda jogada no ar-condicionado da modernidade
Comunguemos o caju do pecado
Paraísos não existem
Lambuzem-se!
Ho ho ho
Apertem o saco do papai noel
e vomitem sacralidades de sua porra
2014: abram as pernas
para o cotidiano exercício da liberdade
Sejamos livres de nós!
Sejamos o nada salvador!
Se bocetas são pecadoras,
arranquemos os meninos do presépio!
Aquém!
Aquém de suas limitações!
 
24/12/2013

terça-feira, 26 de novembro de 2013

liberdade real?

A verdadeira liberdade revolucionária está condicionada à sensibilidade. Ao sentir o outro. Aquilo que lhe toca, ou não. Aquilo que lhe move, ou não. Aquilo que lhe liberta, ou não. Esse, o verdadeiro sentido. O outro.