domingo, 30 de novembro de 2008

Boceta de Pandora


Boceta de PandoraPara a “mulher de Almodóvar”

29/11/2008

Quando criança tinha mania de enfiar coisas pela boceta. Talvez sete anos e abria as pernas para engolir o mundo. Enfiava seus brinquedos até que, um dia, a cabeça de sua Barbie loira quedou-se rubra pelo chão. Desvirginou-se e o mundo não cabia em si. Cresceu assim, esfregando-se entre móveis. Quando ganhou a primeira bicicleta rosa pulava tanto no banco, que um dia começou a enfiá-la pelo guidão. Aos 16, a escola lhe ocupava e não conseguia atender às expectativas. Engoliu, então, Capitu, Guarani, Iracema, Sargento de Mílicias. Até Baleia entrou. Um a um enfrentou a mucosa que mais parecia um Zeus erótico. Ainda que torpe continuou a crescer. Agora era mulher e, aos 35 anos, fantasiava com o açougueiro do supermercado. Meteu a mão na carne moída e digeriu. Sonhava com um emprego estável e lá se foi o cartão de ponto. Sonhava com um carro e lá se foram os pneus. Sonhava com um casamento e lá se foram alianças. Sonhava com estabilidade e lá se foram as futilidades. Sonhava com o lugar comum e lá se foram os sonhos. Sonhava com o amor e lá se foi a barriga. Sim! Inchou! Não sabia o que lhe acometia, apenas que não era a sua barriga que inflava a cada mês. Era a sua coxa prestes a parir. Parou de enfiar coisas pela boceta. E, finalmente, com tudo isto dentro de si, percebeu que nada daquilo lhe pertencia. Que tudo que era seu havia se perdido lá fora, ao seu redor. Tudo aquilo que precisava não estava entre suas coxas, entre mitos ou entre veias. Tudo aquilo que precisava era o som da respiração ofegante do mundo. Eram os sinais da diferença, alguns tragos de uma boemia perdida. Perdeu-se em lamentações que profanavam terços de senhoras de meia-idade. Vociferou os joelhos em demonstrações de uma confissão arrancada. E todo seu arrependimento tornou-se fora do comum. Foi neste momento, entre a merda não rejeitada, que pariu. Entre suas coxas deslizou Pandora e a boceta nunca mais engoliu.

"Ninguém , com toda certeza, é capaz de assumir a liderança em todos os campos, pois para um homem os deuses concederam as proezas da guerra, a outro, a dança, para um outro, a música e o canto, e, num outro, o todo poderoso Zeus colocou uma boa cabeça". - Homero

Boceta: - de Pandora: aquilo que, debaixo de aparência sedutora, pode ser origem de muitos males.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Movimente-se

Há algum tempo meu engessamento artístico tem me incomodado, tanto pela produção, quanto pela expressão. Lembro-me da voracidade com que eu escrevia poemas. O tempo passou, mas a inquietação não. Ontem, conheci uma atriz que me motivou a retomar alguns projetos. Só pode ter sido um ardil do Saci!

De acordo com o dicionário da língua portuguesa, Arte significa: "conjunto de preceitos ou regras para bem dizer ou fazer qualquer coisa". Esta é a minha busca: a coisa. Aquilo que estranha, aquilo que inquieta, aquilo que busca a reflexão. Busco novas formas de expressão, incitar o estranhamento, incitar o conhecimento da "coisa". Este é o grande desafio: trabalhar com diferentes linguagens, diferentes espaços, diferentes movimentações que levam a um único objetivo: a reflexão integrada, ou seja, a crítica multiplicadora, a consciência coletiva.

A idéia é a seguinte: reunir poetas, atores, músicos, repentistas, palhaços... Enfim, artistas reunidos em um espaço compartilhando Arte. Uma atriz interpreta o poema de outrem enquanto alguém faz a trilha sonora. Diferentes movimentações, de preferência em um espaço público, a fim de movimentar e incitar qualquer um que passa pela rua. E aí? Alguém me dá a mão para esta dança? E-mail:camila_marins@yahoo.com.br

Minha poesia

27/11/2008

Minha poesia é puro escárnio de uma noite vagabunda. Escolho a dedo minhas linhas melancólicas, enquanto a memória dilacera meu peito carregado de fel. Palhaços me apontam o dedo e começam a ciranda do desespero. Tapas na cara são reflexos do cotidiano e proibições a leitos de luxúria são habituais. Tudo que falo some em brisa quente. E falos cerceiam a libertação da poesia virgem. Escrevo porque tudo que existe em mim não cabe em um só corpo. O surreal me acomete em vestígios e canto minha dor neste papel. Meu canto é dolorido e silencioso, berra em um eco de contradições. Escrevo em azulejos brancos porque lhes faltam cor. Escrevo toda a escatologia não revelada na convivência. Escrevo porque estou de joelhos diante de minha própria alma. Escrevo porque choro cada poesia. Meu pranto macula estas linhas que já se tornam indecifráveis. Apenas fim!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Vick Cristina Barcelona


Vick Cristina Barcelona

25/11/2008

Faz algum tempo que não vou ao cinema sozinha. E Woody Allen pedia exclusividade. Foi estranho desta vez. Nem o bom moço estava por lá. Não citarei nomes, mas o tal bom moço é dono de uma bagagem cinematográfica fantástica e passávamos bons momentos comentando os filmes deste tal cinema. E, em muitas das minhas idas, presenteava-me com uma sacola de pipoca. Isso mesmo! Uma sacola de supermercado recheada de pipoca e clandestinidade. Mesmo com esta ausência significativa encarei Vick Cristina Barcelona.

Assim que as luzes se apagaram, a ansiedade me tomava. Fora de seu cenário comum de Nova York, Woody Allen explora Barcelona com destreza. A fotografia da primeira cena já mexia com minhas lembranças. Um muro estampado com cores primárias e um violão sedutor fazem-me lembrar de Almodóvar. Sim! São estilos e linhas completamente diferentes. Não há comparação alguma. Imaginemos Augusto dos Anjos e Manuel Bandeira. Talvez o clima catalão tenha me envolvido nestas lacunas da memória ou até mesmo a presença de Penélope Cruz, queridinha de Almodóvar. Reforço que o dedilhar lascivo do violão durante a trilha sonora me fez sonhar com Barcelona.

Com seqüência narrativa e uso de off ao longo da montagem, Woody Allen também utiliza técnicas de edição próprias para comédias. E também abusa da arte com variação entre o barroco e o modernismo, desde construções com estilo gótico até a escultura barroca predileta de Juan Antonio. Inclusive, Juan Antonio é o personagem interpretado por Javier Bardem e, sem dúvida alguma, o melhor dos acertos do diretor. Atuação impecável como o excêntrico artista plástico recheado de conflitos, contradições que são reveladas ao longo do filme. Sua essência vai da segurança à tempestuosidade. Aliás, uma das cenas mais comentadas deste filme é o momento que o artista conhece as turistas norte-americanas e as convida para passar um fim-de-semana em uma cidade próxima, sob o pretexto de conhecerem bons restaurantes, tomarem bons vinhos e fazerem amor. Símbolo da tradição e do conservadorismo, Vick sente-se ofendida, mas Cristina se deixa seduzir.

Durante a convivência dos três, as contradições aparecem e os conflitos são revelados. Antes de assistir, alguns me disseram que seria um filme sobre conflitos amorosos. Definitivamente não! São conflitos exclusivamente individuais e existenciais. Sobre ser ou não ser? Somos a partir de quê? Que valores são esses? De onde vem a diferença? Por que a diferença assusta tanto? Questionamentos e mais questionamentos e sem respostas. Talvez, uma única frase de Cristina tenha me acalentado: “Não sei quem eu sou, mas tenho certeza do que não quero ser”.

As luzes se acendem e um senhor de meia idade à minha frente enxuga suas lágrimas. Confesso: nada de mim restou, apenas as lágrimas compartilhadas. E quando me dei conta, o espelho borrava-se com o reflexo da diferença. Apenas eu e cacos de vidro se estilhaçavam pelo chão.

sábado, 22 de novembro de 2008

Cigarros

Ao cigarro
canção


Bernardo Guimarães

Cigarro, minhas delícias,
Quem de ti não gostarás?
Depois do café, ou chá,
Há nada mais saboroso
Que um cigarro de Campinas
De fino fumo cheiroso?

Cigarro, quanto és ditoso!
Já reinas em todo mundo,
E esse teu vapor jucundo
Por toda parte esvoaça.
Até as moças bonitas
Já te fumam por chalaça !...

Sim; - já por dedos de neve
Posto entre lábios de rosa,
Em gentil boca mimosa
Tu te ostentas com vaidade.
Que sorte digna de inveja!
Que pura felicidade!

Anália, se de teus lábios
Desprendes subtil fumaça,
Ah! tu redobras de graça,
Nem sabes que encantos tens.
À invenção do cigarro
Tu deves dar parabéns.

Qual caçoula de rubim
Exalando âmbar celeste,
Tua boca se reveste
Do mais primoroso chiste.
A tão sedutoras graças
Nenhum coração resiste.

Embora tenha o charuto
Dos fidalgos a afeição,
E do conde ou do barão
Seja embora o favorito;
Mas o querido do povo
És tu só, meu cigarrito.

Quem pode ver sem desgosto,
Esse charuto tão grosso,
Esse feio e negro troço
Nos lábios da formosura?...
E uma profanação,
Que o bom gosto não atura.

Mas um cigarrinho chique,
Alvo, mimoso e faceiro,
A um rostinho fagueiro
Dá realce encantador.
E incenso que vapora
Sobre os altares de amor.

O cachimbo oriental
Também nos dá seus regalos;
Porém nos beiços faz calos,
E nos faz a boca torta.
De tais canudos o peso
Não sei como se suporta!...

Deixemos lá o grão-turco
No tapete acocorado
Com seu cachimbo danado
Encher as barbas de sarro.
Quanto a nós, ó meus amigos,
Fumemos nosso cigarro.

Cigarro, minhas delicias,
Quem de ti não gostará?
Certo no mundo não há
Quem negue tuas vantagens.
Todos às tuas virtudes
Rendem cultos e homenagens.

És do bronco sertanejo
Infalível companheiro;
E ao cansado caminheiro
Tu és no pouso o regalo;
Em sua rede deitado
Tu sabes adormentá-lo.

Tu não fazes distinção,
És do plebeu e do nobre,
És do rico e és do pobre,
És da roça e da cidade.
Em toda a extensão professas
O direito de igualdade.

Vem pois, ó meu bom amigo,
Cigarro, minhas delícias;
Nestas horas tão propícias
Vem dar-me tuas fumaças.
Dá-mas em troco deste hino,
Que fiz-te em ação de graças.

Rio de Janeiro, 1864

Diário de um maço

20 de novembro. Diálogo:


- “Combinado, vou parar de fumar”. – disse a um amigo enquanto tomávamos uma cerveja no City Bar com o cinzeiro lotado.

Não fumo diariamente, apenas com constantes cervejas. No entanto, há algum tempo o cigarro vem me incomodando. Apesar da enorme satisfação que uns tragos proporcionam, ando preocupada com este pseudo vício. Tirarei de cena este companheiro de boemia, por mais difícil que seja.

21 de novembro. Bar com amigos. Depois de algumas horas de resistência, a tentação cai entre dedos. Dou uns tragos. Poucos, mas significativos.

22 de novembro. Ressaca e nenhum cigarro.

Sei que amanhã não fumarei, nem nos próximos dias, mas as famigeradas mesas de bar continuarão na bandeja das tentações...

- Garçom, por favor, mais uma dose!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

desvarios sobre heróis

quem são meu heróis?
não como nossos pais
até a história vai contra


Ah! meus poetas! meus sambistas!

ainda ontem tentei
sim!
meus poetas
minhas poetas
sabe o que viram ontem?
quintana pegou na minha mão
andrade não gostou nadinha
mas sambou
qual dos andrades?
tanto faz, mas um deles me deu uma rosa bem no meio do povo.
e o outro, coitado, me ensinou verbos intransitivos
transitei pela rua, acompanhada por desvairados
e no meio do caminho uma flor, uma flor bela.
uma flor mal dita pelos poetas, arremessada em seu mais duro imperativo
ontem mesmo clarice tomava um café com ana cristina e sussurravam memórias de algumas putas tristes. não tive escolha e contei tudo ao centenário gabriel que insiste na solidão. gabriel ainda me alertou: “feche os olhos menina”. mas, mesmo assim, saramago chegou, ofereceu-me intermitências da morte e sequer deixou-me chegar à cena do asfalto!!! sentei-me na praça, bem longe destes alucinados. e, em tempos de cólera e em substancial felicidade clandestina, fiquei a teus pés. já era hora! minha estrela saltou da varanda e gritou sua antologia.

Ei, você! Você mesmo! Não conta para ninguém, mas vou tomar um uísque com J. Toledo. Bye!

sábado, 15 de novembro de 2008

Happy End

15/11/2008

Adormeceu com os ruídos da noite paulistana. Ainda no segundo andar podia ouvir um meio salto rastejando pelas ruas do Centro da cidade, pneus queimando canções pelo asfalto, garrafas ensaiando ballet em uma disputa entre cavalheiros. Esta era a canção de ninar que o embalava todas as noites. Adormeceu assim: com sua orelha direita queimando na coxa esquerda daquela mulher. Seu nariz roçava o vão daquela virilha feminina. Adormeceu e, em seus sonhos, o cotidiano. Em algumas noites gostava de dormir com meias. Mesmo no verão, usava edredon. Fazia bolhinhas de sabão com o xampu. Lia dicionário no banheiro. Guardava seu bombom preferido para o final. Comia massa de bolo crua. Andava nu pela casa recitando Drummond. Escondia seus CDs do Roberto Carlos. Deixava a barba crescer bastante só para ter o prazer de arrancá-la e sentir-se outro homem. Entre vigília e sono, acordou com o barulho do escapamento de um ônibus cuspidor de diesel. Entre coxas, não hesitou. Fitou a pele morena magenta e sacudiu a mulher em seu leito.

- Clarice, acorde! Tenho algo importante a dizer. – murmurou.

Espreguiçando-se, ainda sonolenta, Clarice levantou a cabeça e parte do tronco de modo a apoiar seus cotovelos sobre a cama. Ele continuou entre coxas apoiando as mãos no queixo.

- Case-se comigo. – ele perguntou.
- Eu aceito com algumas condições: nada de igreja, véu, grinalda, festa, família, presentes, padrinhos, bolo com dois andares, chá de cozinha ou união civil. Nada disso. Continuemos assim: cada um em seu apartamento com camas compartilhadas.

Nesse momento, ele percebeu que era o homem mais feliz do mundo, mesmo anônimo. Novamente, adormeceu. Desta vez, sobre o ventre.



terça-feira, 11 de novembro de 2008


Poema do poema

11/11/2008

Já disse e repito:
Não uso rimas
Ou qualquer tipo de cortesia verbal ou nominal
Minha poesia é assim: livre e, talvez, libertina
as palavras me atormentam
e a cada linha o flerte aumenta
nem sempre palavras
confundem-se com autoria
por favor!
merdas são ditas
entrelinhas
cansei-me de tais ditos
daqueles ditos cujos
e a contradição me abate
e Lilith ou Dionísio não mais me comovem
talvez Ártemis ou Hefesto
não falo a sua língua
nem a minha!
e deste poema
uma rima para a última linha

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Reclame



"A esses lhes digo eu na cara, conquanto não soe muito bem: o mundo parece-se com o homem por ter também traseiro; isto é a grande verdade!"


Friedrich Nietzsche em 'Assim Falou Zaratustra' - XIV


Alice

Cena de Alice:
- "Sim vó, estou em casa"!

“Logo à direita está a praça da Sé” – informaram-me.
Centenas de pessoas são abrigadas pela praça. Curiosamente, entro na igreja, sento-me e começo a ouvir a novena que fazem. Dezenas de orações, burburinhos, sussurros, súplicas, penitências, confissões. Tudo ali, abrigado pela fé. Hora de ir para a Barra Funda, local onde faria a prova. Já na volta para Campinas, lembro-me de Alice!

Talvez eu ainda não saiba exatamente onde eu esteja...



Alice é uma série na HBO

quinta-feira, 6 de novembro de 2008


Balada do cárcere


(homenagem singela para Oscar Wilde)

05/11/2008

arrancou minhas vísceras
enquanto atabaques gritavam meu desespero
Rasgou minha pele com dentes
e ainda olhava-se no espelho

os sinos badalaram e
nem o mais casto dos padres te acudiu
A cruz lhe fugia à sentença
e o pecado era sua natureza

quem é você?
você é quem?

Em sua sacristia de pura volúpia
entornou um cálice de desejo escorregadio
- entre perdas e danos -
o limbo ainda o esperava

e por baixo da roupa
sangue fervia entre veias pulsantes
e o que fez?
acolheu misérias em minh’alma

balança
balança
porque um corpo cai

mais um...


terça-feira, 4 de novembro de 2008

Reprise de David Lynch no Roda Viva

Reprise de David Lynch no Roda Viva

04/11/2008

Cena: jornalistas, cineastas renomados sabatinam David Lynch.

É claro que, inicialmente, os jornalistas tentaram pautá-lo com questões sobre cinema, Hollywood, surrealismo, Arte, mundo onírico, infância e outros temas.

Tapa na cara ou obviedade?

Pergunta:
Sr. Lynch, por que o senhor acha que Hollywood boicota os seus filmes e sempre tem de buscar parceiros europeus?

Resposta de Lynch:
Hollywood não boicota meus filmes. Eu não faço filmes quando não há como fazê-los. (Lynch refere-se aos contratos de Hollywood que não permitem a edição final do filme, fato que reduz a autonomia do diretor).

Diante de tantas respostas secas do diretor, os jornalistas resolvem pautá-lo por outro caminho, já que Lynch conseguiu pautá-los em boa parte da entrevista (não vejo isso como um mau sinal, pois também ficou claro o cuidado e o respeito dos profissionais com o artista, mas, é claro, que o público quer mais). Meditação é a bola da vez! Em parte, os jornalistas acertaram, pois Lynch respondia cada pergunta com ênfase, sem celeridade e discorria sobre o assunto plenamente. No entanto, qual o interesse do público quando se depara com Lynch no Brasil? Certamente não é meditação. Cinema! Arte! Fotografia!

Grotesco? – usando a meditação para falar sobre cinema? Ou usando Hollywood para falar sobre meditação? Ou nada disso? Ou o Tom Cruise tem um caso com John Travolta?

Pergunta: Alguns atores de Hollywood como Tom Cruise, John Travolta aderiram a cientologia. O que o senhor acha da divulgação desta religião? (algo parecido com isso).

Resposta:
Meditação não é religião.

Eu digo mais: meditação não é Hollywood. Meditação não é cinema! Cadê o cinema? Não que o tema “meditação” não me atraía, mas eu quero ouvir Lynch e suas teorias sobre cinema, arte.

Uma das perguntas me deixou feliz, porque a resposta de Lynch pode ter sido a chave de seus enigmas.

Pergunta: Como foi a sua infância?

Resposta: Repleta de sonhos. Fantástica. Pude fantasiar muito, sonhar e passear pelo mato. Porque de uma coisa eu entendo: é mato – todos os seus mistérios e segredos.

Bingo! Cidade dos Sonhos! Quem assistiu sabe muito bem do quê estou falando... Por mais que desviasse sobre o assunto, Lynch jogou algumas chaves no ar. Enquanto falava, o cineasta dedilhava no ar suavemente como se estivesse compondo alguma melodia.

Para finalizar:

Pergunta: O que o senhor achou do Brasil?

Resposta: Ah! Os túneis do Rio de Janeiro passando pelas montanhas... daria um belo filme....

Será?

sábado, 1 de novembro de 2008

Verossimilhança

"Se, depois que eu saísse, um amigo meu desse uma festa e não me convidasse, eu não me importaria nada. Sou perfeitamente capaz de ser feliz sozinho. Tenho liberdade, livros, flores, e a lua, quem poderia ser tão feliz? Além do mais, já não estou muito para festas. Já progredi demasiado para me preocupar com elas. Esse lado da vida acabou para mim, e atrevo-me a dizer que ainda bem! Mas, se depois de eu sair, um amigo meu tivesse uma dor e se recusasse a permitir-me partilhá-la com ele, senti-lo-ia com muita amargura. Se ele me fechasse na cara as portas da casa do luto, eu voltaria uma vez e outra e pediria para ser admitido, para poder partilhar aquilo que tinha o direito de partilhar. Se ele me achasse indigno, incapaz de chorar com ele, senti-lo-ia como a mais pungente humilhação, como o mais terrível modo de a desgraça me ser imposta. Mas isso nunca aconteceria. Eu tenho o direito de partilhar a Dor, e aquele que é capaz de olhar para os encantos do mundo, e partilhar a Dor, e a tua dor, e compreender um pouco a maravilha de ambos, está em contato direto com as coisas divinas, e chegou tão perto do segredo de Deus quanto alguém pode estar"


"Será necessário afirmar que percebi nitidamente que seria uma desonra para mim continuar a ter qualquer relação, ainda que superficial, com uma pessoa como a que tu mostraras ser? Que reconheci que tinha chegado o último momento e que o reconheci como sendo, de fato, um imenso alívio? E que sabia que, no futuro, a minha Arte e a minha Vida seriam livres, melhores e mais belas, de todos os pontos de vista possíveis? Doente como estava, senti-me emancipado"


Oscar Wilde em De Profundis - Balada do Cárcere de Reading





Cacto's

Bela parceria com o querido amigo e poeta, Franco Rajer. Lembro-me exatamente do telefone tocando de madrugada e cactos atravessando nosso diálogo inspirado por um poeta argentino. No dia seguinte, a orgia literária estava posta. Estes são poemas antigos, mas, há alguns dias, Franco enviou-me para recordarmos. Boa lembrança!

Cacto'S

Camila Marins 23/03/2007

Um grão algures, contra
minha contradição
do seu vácuo resistente, este cacto
é um curvo caractere
onde alinhar a espinha

e minha pele jamais será como a tua;
seu ângulo depressa,
coutado
à sobrevivência e à displicência
desta sombra liquefeita, destas cutículas
que inibem o facto: o fragmento
era esse o hino, esse acervo
de notas
sons

desafinados aqui, na irrelevância
de qualquer semântica

Os cactos refletem no cascalho, no
sussurro do eco. Jamais esquecem
sua panacéia:

vão resistir
vão nascer quase sem meu consolo

O cacto é
esse grão amargo, degustado
no micro do poro, bem
escondido? É.

Esquecido pelos insetos
se centrifuga de si; e a sua
rotação
é acto, negada ao plural.-





Cacto
Franco Rajer

Um grão algures, contra
minha contradição
no seu vácuo resistente, este cacto
é um curvo caractere
onde alinhar a espinha

e minha pele jamais será como a tua;
teu ângulo agudo,
espreitaà sobrevivência e à gratuidade
desta sombra liquefeita, destas cutículas
que inibem o fato: "o fragmento
era esse hino, esse acervo
de notas
sons

desafinados aqui, pelo calor
deformador da paisagem "

E o eco propagado no cascalho,
sussurra: "cactos, não esqueçam jamais
esta canção"
vão resistir
vão renascer quase mudos

"O cacto é
esse grão amargo, degustado
no micro-poro, semi
escondido?". É.

centrifuga-se de si; e a sua
rotação é ato, não procura o infinito