sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Boceta de Pandora

Boceta de Pandora
29/11/2008


Crédito da foto: Bruna Borges


Para a querida e indescritível "mulher de Almodóvar", minha inspiração.


Quando criança tinha mania de enfiar coisas pela boceta. Talvez sete anos e abria as pernas para engolir o mundo. Enfiava seus brinquedos até que, um dia, a cabeça de sua Barbie loira quedou-se rubra pelo chão. Desvirginou-se e o mundo não cabia em si. Cresceu assim, esfregando-se entre móveis. Quando ganhou a primeira bicicleta rosa, pulava tanto no banco, que, um dia, começou a enfiá-la pelo guidão. Aos 16, a escola a* ocupava e não conseguia atender às expectativas. Engoliu, então, Capitu, Guarani, Iracema, Sargento de Mílicias. Até Baleia entrou. Um a um enfrentou a mucosa que mais parecia um Zeus erótico. Ainda que torpe, continuou a crescer. Agora era mulher e, aos 35 anos, fantasiava com o açougueiro do supermercado. Meteu a mão na carne moída e digeriu. Sonhava com um emprego estável e lá se foi o cartão de ponto. Sonhava com um carro e lá se foram os pneus. Sonhava com um casamento e lá se foram as alianças. Sonhava com estabilidade e lá se foram as futilidades. Sonhava com o lugar comum e lá se foram os sonhos. Sonhava com o amor e lá se foi a barriga. Sim! Inchou! Não sabia o que lhe acometia, apenas que não era a sua barriga que inflava a cada mês. Era a sua coxa prestes a parir. Parou de enfiar coisas pela boceta. E, finalmente, com tudo isto dentro de si, percebeu que nada daquilo lhe pertencia. Que tudo que era seu havia se perdido lá fora, ao seu redor. Tudo aquilo de que precisava não estava entre suas coxas, entre mitos ou entre veias. Tudo aquilo de que precisava era o som da respiração ofegante do mundo. Eram os sinais da diferença, alguns tragos de uma boemia perdida. Perdeu-se em lamentações que profanavam terços de senhoras de meia-idade. Vociferou os joelhos em demonstração de uma confissão arrancada. E todo seu arrependimento tornou-se fora do comum. Foi neste momento, entre a merda não rejeitada, que pariu. Entre suas coxas deslizou Pandora e a boceta nunca mais engoliu.


"Ninguém , com toda certeza, é capaz de assumir a liderança em todos os campos, pois para um homem os deuses concederam as proezas da guerra, a outro, a dança, para um outro, a música e o canto, e, num outro, o todo poderoso Zeus colocou uma boa cabeça". - Homero


O dicionário revela o velo:
Boceta: - de Pandora: aquilo que, debaixo de aparência sedutora, pode ser origem de muitos males.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Vida a dois

Um sofre, o outro bate a porta. Simples assim.

o dia


nada como um dia após o outro.. Hoje, um. Amanhâ menos um.

Pés

Precisava sentir seus pés livres. Sapatos apertavam. Apertavam seu caminhar, que um dia foi livre. Um pé depois do outro. Aprendia a caminhar. Coluna ereta e visão turva. Primeiros passos de uma criança não nascida. Mórbida.

Música para o santificado domingo. Amém.


Pôneis malditos

URGENTE! Não existem príncipes encantados e nem cavalos brancos. Apenas pôneis malditos! E tenho dito!



segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Clara Nunes e o seu canto


E qual é o seu canto?
Por que tão geométrico?
Confunde corpo com paredes.
E ouço apenas o sussurro de outrem.
O desconhecido e inabalável canto de
um mundo imaginado
entre paredes.