quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A história de um outro Luiz, também filho do Brasil


Foto premiada pela ONU






A história de um outro Luiz, também filho do Brasil


Negro, pobre, estudante de jornalismo e militante, jovem tem fotografia selecionada em concurso da ONU

“Comia pasta de dente por falta de comida”, lembrou Luiz.


Camila Marins


Olhos que vivenciaram a tortura psicológica e física. Olhos que sofreram com o abuso sexual, preconceito e a miséria. Olhos que sentiram fome. Olhos que ainda têm fome. Fome de uma sociedade mais justa e solidária. Este olhar sonhador pertence ao jovem Luiz Roberto Lima, 35 anos, estudante de jornalismo e coordenador do Diretório Acadêmico de Comunicação da PUC-Campinas. Luiz foi um dos quatro selecionados para o concurso mundial de fotografia “Humanizando o Desenvolvimento”, promovido pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) que selecionou 50 imagens de 27 países.

Participaram do concurso fotógrafos profissionais e membros da sociedade civil. O conteúdo enviado foi avaliado por representantes do IPC-IG, do Programa de Voluntários das Nações Unidas (UNV) e um fotógrafo profissional. Os olhos que já presenciaram o pior das mazelas sociais, hoje, registram por meio da lente fotográfica a realidade, rumo à construção de um mundo melhor. Militante de direitos humanos, Luiz explicou que o objetivo da foto, feita em 2009 em uma oficina de meio ambiente no distrito de Sousas, em Campinas, foi mostrar exemplos de superação social.

Já no 3º ano de jornalismo na PUC, Luiz é bolsista do Prouni e carrega uma história de luta e sobrevivência. Abandonado pela mãe na maternidade, ele cresceu em um orfanato, onde sofreu todos os tipos de violência possíveis. “Tinha muitos afazeres domésticos, como cuidar dos menores. Passava a noite inteira acordado, pois se os bebês chorassem, eu apanhava muito. Qualquer travessura era motivo para ficarmos sem comida. Muitas vezes, cheguei a comer pasta de dente, mesmo com uma dispensa enorme cheia de comida que, inclusive, chegava a estragar, mas eles não nos deixavam comer”, contou.

Entre espancamentos, assédio moral e fome, Luiz não foi imune ao preconceito, já que é negro. “O fato de ser negro pesava muito. Eu pedia a Deus para ser branco e assim ser adotado para libertar-me daquela situação. Apanhava feito um condenado, por motivos banais. Nós não podíamos contar para visitas, pois as surras eram piores”, relatou Luiz lembrando que seu apelido era “Negrinho do Pastoreio” e, por este motivo, simplesmente pelo fato de ser negro, recebia surras homéricas, assim como outros companheiros negros.

Além de negar comida e espancá-lo, as pessoas responsáveis pela instituição que o acolheu também surravam os bebês, segundo Luiz. “Quando as crianças de berço choravam muito, as tias pressionavam a cabecinha delas contra o berço. Na hora do banho, batiam muito. As crianças viviam marcadas. Lembro-me de um menino negro, chamado Jorginho, ele tinha um ano e meio aproximadamente. Ele chorava muito e quanto mais chorava, mais apanhava. O menino, coitado, só queria ficar no meu colo. Ele me via e chorava. Às vezes, a tia me fazia passar a noite inteira com ele no colo e não podia dormir”, declarou.

Mesmo com inúmeras doações à instituição, as crianças e os jovens não recebiam nada. De acordo com Luiz, sua principal memória do Natal era quando uma fábrica de brinquedos fazia uma imensa doação e as crianças nunca chegavam a ver os tais presentes. “Num determinado Natal aprontamos alguma coisa. Era comum no final de ano, algumas famílias nos levarem para suas casas, mas neste ano, devido a alguma travessura, passamos todos nós lá, com fome, vendo a caseira comemorando com a família e todos muito bem arrumados”, denunciou.


E o Luiz cresceu

Aos 11 anos, Luiz foi transferido para uma instituição para adolescentes. O menino sonhava que poderia viver melhor, pelo menos com mais tranquilidade e sem surras, mas não foi bem esse quadro que ele encontrou. “Diálogo era o da porrada. Era como se fosse um quartel, com as regras mais arcaicas que podiam existir, baseada na submissão e violência. Tinha um cara que cuidava da gente, chamado Benê, negro também. Ele era o mais violento batia com murros e pontapés. Era um ambiente de medo, revolta. Parecia um caldeirão com todos os ingredientes presentes, prontos pra explodir”, ele contou.

Mesmo com o corpo dolorido de violência e a alma castigada pela injustiça, Luiz alimenta um sonho: o de conhecer sua mãe. “Desde criança olho para as mulheres negras que encontro imaginando como seria minha mãe e, assim, meu olhar foi envelhecendo com as dificuldades para encontrar minha verdadeira família, mas a esperança ainda persiste em mim”.

Aos 16 anos, ainda sem perspectiva de adoção, Luiz pediu emancipação e foi morar em uma pensão. No entanto, pouco tempo depois, ele perdeu o emprego e foi morar na rua. “Aí que realmente eu vi o que era sofrer. Descobri que a violência, o abuso sexual sofrido na primeira instituição não chegavam perto do que era a rua - nua e crua”, revelou.

De acordo com levantamento feito pelo Ministério de Desenvolvimento Social, há uma predominância masculina (82%) entre as pessoas em situação de rua. A maior parte, 53%, situa-se na faixa etária de 25 a 44 anos. Nesta população, 30% se declararam negros, índice bem acima da média nacional, que é de 6,2%. Já o percentual dos que se consideram brancos é de 29,5% (esse índice é de 54% entre o conjunto dos brasileiros). “Conheci alguns "menores de rua" e comecei a acompanhá-los. Tentei furtar pra comer, mas não dava certo, eu não conseguia, diferenciava-me, dos demais. Alguns dos meninos e homens de ruas mais velhos, diziam que a rua não era pra mim. Na verdade, a rua não é pra ninguém”, alertou Luiz.

Depois de passar três anos em situação de rua, Luiz começou a viver com a solidariedade das pessoas que lhe ofereciam abrigo, comida e ajuda. Começava a construir uma nova vida e, desta vez com o apoio de amigos e companheiros.

Outro fato que revelou o preconceito aconteceu em um shopping center de São Paulo. “Comecei a trabalhar e já podia comprar minhas roupas de marca, que é o sonho de jovens da periferia. Fui com um amigo comprar o tão sonhado tênis. Mas como paguei à vista o vendedor, achou que eu era bandido e avisou o setor de segurança. Fui algemado pelo segurança em uma cadeira e comecei a levar tapa na cara, com um revólver apontado pra minha cara. O interessante é que meu amigo, branco, não apanhou. Eu gritava e o segurança pegou dois fios ligado na tomada e passou a dar choque, querendo saber do resto do dinheiro, querendo saber de que quadrilha eu era”, disse Luiz lembrando que todos os seus documentos estavam certos e não havia qualquer indício para que o acusassem. “As ameaças eram cruéis, a ponto de ele dizer que ia me penetrar com cabo de vassoura. Para minha sorte, chegou um chefe de segurança do turno da noite, e perguntou o que estava acontecendo, o segurança relatou e eu relatei”. Foi nesse momento que o rapaz foi liberado.

Após este episódio traumático, Luiz resolveu entrar em um supletivo e em um cursinho, momento em que passou no Curso de Ciências da Educação da UERJ, logo depois transferiu para Ciências Sociais. “O cursinho foi fundamental na minha trajetória, pois ele era alternativo, então me deu uma base socialista, de esquerda. Lá aprendi música, teatro, poesia, arte e esperança. Esperança para uma nova vida”. Sem dinheiro, ele resolveu arriscar e iniciou sua faculdade. Inicialmente, conquistou uma bolsa-auxílio, mas o governo da época (Garotinho) cortou o benefício e Luiz teve de abandonar no 3º ano e retornar à Campinas. “Procurei um emprego na cidade e fui trabalhar num call center. Fiquei um ano sem estudar e depois entrei na Puc para fazer Direito pelo Prouni. Fiz um ano e mudei para o Jornalismo”.

E foi como estudante de jornalismo que Luiz transformou seu olhar estético e crítico em visão de mundo. “Acredito que a revolução se faz no cotidiano. A construção de um mundo melhor, de um Brasil mais justo e mais igualitário se faz todos os dias e o jornalismo tem um papel fundamental na consolidação da democracia”, concluiu Luiz que caminha pelas esquinas de Campinas com máquinas fotográficas emprestadas, com passos pesados da vida, mas braços prontos para a construção de um mundo melhor.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Solidariedade Cubana




“Nesta noite 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana”, Fidel Castro.

UNICEF confirma: Cuba tem 0% de desnutrição infantil.

Hoje não há mais analfabetos em Cuba. Segundo o The World Factbook 2007[52], 99.8% da população cubana, acima de 15 anos, sabe ler e escrever.

Em Cuba 85% das famílias são donas de suas próprias casas - portanto não pagam aluguel - e os 15% restante pagam de aluguel 1 ou 2 dólares mensais.


Dados do Ministério de Saúde Pública cubano mostram que o país tem o menor índice de mortalidade infantil da América Latina. O número coloca Cuba em segundo lugar em todo o continente americano.

Estas informações mostram que o povo cubano tem a garantia de seus direitos: moradia, alimentação, saúde, educação e totalmente gratuitos. Nenhum direito é tratado como mercadoria e a prioridade é a sociedade, o coletivo. Para apoiar o sistema, a Associação Cultural José Martí-RJ (ACJM) se solidariza ao povo cubano e promove atividades, fóruns, encontros, convenções, envio de brigadas e estudantes brasileiros que queiram cursar Medicina.

Para iniciar esta nova década, a ACJM envia a XVII brigada sulamericana de solidariedade a Cuba, como tem feito anualmente. Como forma de contribuição ao povo cubano, a Associação em conjunto com o brigadistas faz uma campanha de arrecadação de material hospitalar, como gaze, band-aid, esparadrapo, luvas, etc.

Contribua você também! As doações podem ser feitas em dinheiro ou em material a ser entregue na própria associação, no endereço abaixo.

As doações podem ser feitas em dinheiro por meio da conta da própria Associação:

Banco Itaú, Ag. 6158-0
CC. 02346-2



ou material a ser entregue na própria Associação, no endereço: rua 13 de Maio, 23, salas 1623 e 1624.


Contatos:
Associação Cultural José Marti – RJ
Avenida 13 de maio, 23, salas 1623 e 1624 - Centro - CEP 20031-000
Comunidade no Orkut: Associação Cultural José Martí
acjm_rj@ig.com.br
Tel/Fax : (21) 2532-0557
http://josemartirj.webnode.com/


Ser solidário a Cuba significa ser solidário a todos os povos da América Latina rumo à libertação.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Série - Pílulas do asfalto em náusea

04/01/2010

Teria de aprender a ser lacônica. Tentara em outros tempos. Guardava em si segredos de uma loucura atestada: esconderijo. ABESTADA! E seu desequilíbrio tornara-se egoísmo em tempos de cólera. Seu corpo desértico e ressequido esvaía sal entre poros de uma pele carpideira. Engasgava até vomitar as angústias de um pretérito mais do que imperfeito, momento este em que disfarçava por meio de seus sorrisos de Chaplin uma melancolia visceral.

“Até quando?”, questionava-se.

Até cair da ponte que te pariu. Estatística. Pronto. Foi-se. Sem mais, nem menos e ninguém percebeu... nem mesmo a autora desta pílula.

This is the end my friend

domingo, 20 de dezembro de 2009

Esquizofrenia


Esquizofrenia

20/12/2009

Surtos esquizofrênicos impediam passos futuros. Alucinava em copos cheios de vazio. Assim era sua alma. Sussurros pelos corredores lhe torturavam e já não havia mais anima que suportasse. Seu rosto se acostumara com labirintos de sal desenhados em pranto. Bagunçava os cabelos em busca de respostas e seus caracóis nada lhe diziam: rastejavam em marasmo. O desespero confrontava sua razão e não era mais a mesma. Caia no desequilíbrio e nem as unhas lhe sobravam. Permanecia na corda bamba da existência e nenhum (a) braço para lhe amortecer a queda. Queda sem fim, apenas abismo. Assim fora sua vida, vazio sem fim, precipício da loucura. Fim, apenas o fim lhe soara bem, quiçá canção de ninar... Durma bem meu bem... e não se esqueça: close your eyes.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Sim! Sou negra!

Sim! Sou negra!



“Por favor, você poderia encher a garrafa de café?”. Foi exatamente isso que ouvi em um evento que fui cobrir destinado a engenheiros e advogados. Apenas respondi à elegante senhora: “Desculpe, mas eu também gostaria de tomar um café. Sabe onde podemos encher?”. Fui cobrir a atividade para fazer uma matéria sobre o pré-sal e a cor do petróleo se fez presente. Sim, sou negra!

Há algumas semanas outro fato interessante aconteceu. Eu estava entrando na minha casa quando a vizinha me abordou e perguntou se eu era a tratadora dos gatos que criamos em casa... Eu disse que não e que morava ali e ela insistiu: “Você mora onde? Aqui no bairro?”. Eu disse não, moro neste apartamento. E ela, um pouco sem graça, continuou a conversa sem eira nem beira e, ao final, ainda me cumprimentou com um beijo no rosto, gesto que não foi feito no início da conversa. Ou seja, tentou contornar a situação com um beijo de Judas.

Agora, nesta segunda-feira passada, estava chegando do aeroporto, vindo de Manaus, com muita bagagem e o porteiro prestativo interfonou no meu apartamento e disse: “Olha só, sua secretária está subindo com um monte de malas, alguém pode ajudá-la?”. Meu amigo questionou se era nossa secretária doméstica e o porteiro disse: “Não, é a Camila”. Então, novamente, eis a confusão. Não me importa ser confundida com secretárias, domésticas ou qualquer outra profissão, o que realmente me importa é a violência do preconceito racial. E a dimensão desta dor poucos conhecem. Ou talvez muitos, já que a maioria de nós faz parte da imensa parcela de excluídos.

E, mesmo diante de situações cotidianas como as descritas acima, nós, excluídas e excluídos, ainda somos acusados de vitimização. Inadmissível, pois só corrobora para a hipocrisia e praticamente ignora o preconceito. Não adianta me dizer que no Brasil não existe preconceito. Existe sim e convivemos com essa dor cotidianamente. Outros ainda me dizem: “Você não é negra. É morena de cabelo cacheado”. Então, me respondam se eu não sou negra, porque sofro preconceito racial incessantemente?

Sim! Sou negra!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Esquina putanesca

Esquina putanesca

24/11/2009


Desenhava rabiscos em azulejos de paredes mortas. Falava com as paredes e, ainda assim, era só. Alucinava com a dependência venenosa entre corpos parafraseados de matéria. Apenas matéria. Nada mais do que matéria. E a alma esquecida perdia-se. Perdia-se em caminhos metamorfoseados. Soluçava suas lágrimas mais desesperadas quando descobriu: o amor não bastava para a felicidade. E fez-se a matéria. Era um maldito lançado ao azar das mais belas flores vermelhas oferecidas. Caminhava, lado a lado, com as borboletas que lhe sugavam o néctar. E, assim, como relógios de Dali, derretou a cada esquina putanesca, questionando a imperfeição de tempo e memória.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

SÚBITA

Súbita

23/10/2009

Súbita. Esse era seu nome. Vagava pelo Novo Mundo, entre sonhos perdidos e malas vazias. Marejava, em sua contradição oceânica, águas de um reflexo distorcido. Afogava-se como Narciso em busca do outro e sofria como o grande poeta. Não acreditava no amor, somente na poesia de Clarice e nos versos de Bethânia. Não mostrava o corpo e os botões eram seus melhores amigos. Seu sorriso de carpideira aprontava histerias em procissões e nada lhe fazia ser. E tudo aquilo que lhe parecia verdade, claro e certo, se esvaiu: pelo ralo mais fétido na casa do ferreiro com espeto de pau. E o amor lhe contaminou, mais uma vez. Quando lhe parecia finito no peito, ele gritou e, finalmente, estava apaixonada. Seus lençóis nunca mais foram os mesmos. E o verbo se fez feminino, em sua forma mais transitiva. Súbita. Esse era o seu nome e aqui jaz aquilo que, um dia, foi crença: subitamente.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sim! É possível amar novamente...

tão feliz...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Olimpíadas para quem? Confesso: nunca torci pela vitória do Rio de Janeiro!

09/10/2009


E as Olimpíadas abocanharam o Rio de Janeiro. Ou vice-versa. Foi confirmada a vitória da cidade maravilhosa na última sexta-feira, dia 2. Famigerada data que, inclusive, representou um feriado facultativo... Podem acreditar! Além disso, muitos shows e quase um circo. As ruas cariocas estavam empolvorosas, as praias lotadas de expectativa e por que não patriotismo. Pois é, as pessoas torciam fervorosamente apelando a um pseudo patriotismo e nacionalismo.

Confesso: nunca torci pela vitória do Rio de Janeiro! Não tenho dúvida alguma de que realmente sejamos uma cidade maravilhosa, mesmo com tantos problemas. No entanto, ocultá-los, é um erro inadmissível. Em primeiro lugar, o vídeo de defesa da candidatura do Rio de Janeiro é uma farsa! Sim, uma farsa e quase tragédia. Quem assistiu pôde minimamente perceber todo o belíssimo carnaval reproduzido, entre belas praias, paisagens, samba, alegria, sincretismo religioso. Fez-me sentir orgulhosa de ser brasileira, assim como deve ter feito a muitos. Mas, a pergunta que não quer calar: para onde foram as favelas? E os pobres? E a violência? E os policiais com seus fuzis? Em todos os gráficos e mapas, nenhuma favela é mostrada. De repente, sumiram...

Atualmente, o Rio de Janeiro vive uma ostensiva política de violência do Estado. Bastam-me dois exemplos: a operação “Choque de Ordem” e a contenção das favelas por meio de muros. Para quem não sabe “Choque de Ordem” é uma operação cujo principal alvo são os trabalhadores informais, desempregados e sem teto. Digamos que representa uma espécie de higienização da cidade, assim como Pereira Passos fez um dia. E para onde vão esses trabalhadores, sem teto e informais? Ninguém sabe. Ou pior, para outra esquina, desde que seja bem longe da Zona Sul. Esta é a lógica da política implementada pelo governo: a segregação espacial e social.

Seguindo esta lógica, tijolo a tijolo é construído o muro de contenção nas favelas. Sob a desculpa de preservação ambiental, os pobres são cada vez mais isolados e distanciados dos grandes centros. Tapa os olhos, mete cimento e arromba casa. É assim que funciona e tudo isso só começou para fortalecer a candidatura do Rio de Janeiro às Olimpíadas. Imaginem o que vem por aí... Ocupação das favelas, certamente. Mas a que custo? Eis o custo: morte de trabalhadoras e trabalhadores, crianças, violência ininterrupta, milicianos e a continuidade da corrupção.

Enquanto as pessoas sonham com a chegada de 2016, eu tenho pesadelos: se antes era “Choque de Ordem”, agora será “Ordem de Execução”; ou antes “Muros de Contenção das Favelas”, agora “Balas para extermínio das populações periféricas”. Nem aprofundarei muito na questão dos transportes, mas vale a pena citar que apenas setores da elite terão o transporte melhorado, enquanto isso trabalhador continuará sendo chicoteado como animal em jaula nos trens da Supervia. Isso tudo sem contar o lado financeiro: imaginem quantas CPIs (Comissão Parlamentar de Inquérito) teremos? Quanto caixa 2?

Será que nossa cidade maravilhosa se afundará em dívidas, promessas não cumpridas e repressão aos pobres? Agora que a Olimpíada chegou, a denúncia não pode parar!

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

EXPERIÊNCIA

Experiência

23/09/2009


quando menos se espera
arrebata
e a cama completa
o círculo

o círculo
ainda longínquo
secreto
e quase mudo de si

feminino exacerbado
pernas trançam em valsa
gemidos em sustenido
maculam noites de lua cheia

abandona a perversão
e agora sublima
o círculo

a dor não lhe acomete
e a cama completa
o círculo

e o canto do amanhecer tortura
tortura
a separação
separação de dois corpos em círculo

em seus sonhos, Jung abençoa
a união do ser
gozo em demasia

assim seja!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

MEDO, rogai por nós!


MEDO, rogai por nós!

14/09/2009


O medo silencia bocetas tagarelas. O medo arregala o olho do seu cu. O medo faz criancinhas chamarem a puta que as pariu de senhora. O medo faz padres punhetarem sob batinas. O medo nos faz ajoelhar entre a cruz e o falo rompante. O medo faz putas se comportarem como virgens. O medo faz virgens se masturbarem com Jesus na cruz. O medo me faz dizer isso tudo e ainda me conter. O medo me faz tentar romper - com a incerteza de um futuro êxito. O medo me faz sair da 3ª pessoa para blasfemar em 1ª. O medo espalma meu corpo e beija minha face como Judas. O medo! O medo! O medo se revela no espelho e meus olhos se confundem no silêncio de uma alma precipitada.

Medo e espelho: prisão emoldurada do ser.






quinta-feira, 10 de setembro de 2009

INSÔNIA - again


INSÔNIA - again
10/09/2009


Seu lirismo era putanesco e não manifestado em seu corpo. Pensava que seu maior inimigo era a dor, mas enganava-se. Lograva-se na pseudo persuasão de caminhos lascivos. Seu corpo escorria a seiva da mais pura dor. Dividia-se na existência e perdia-se em EUs. Era mulher e quase odiava o mundo por isso. Sonhava com o ascensorista do prédio. Ah! Como lhe atormentava aquela imagem: dedos acariciando botões... Não era um toque manual automático ou desatento; era um toque libidinoso, quase convidativo. Continuava perdida entre desejo e dor. Oceânica e sedenta: assim era sua alma derretida em lágrimas – sal que seca corpos e incita masturbações indesejáveis. Cansava de proibições e pervertia-se em descobertas que pingavam, uma a uma, por suas coxas. Ainda molhava lençóis: solitária. E tinha a fome de Lilith. Tinha a fome de Zeus. Queria engolir tudo para preencher o vazio. E o vácuo, finalmente, revelou seu maior inimigo: o seu próprio eu, minúsculo em existência.


terça-feira, 8 de setembro de 2009

A PUTA DE CADA DIA


A PUTA DE CADA DIA


08/09/2009


Seria a puta daquele que a fizesse uma. Não era mulher cotidiana, esporrava entre pernas dores de uma barbárie. Não sabia o significado da palavra “felicidade” e abortava filhos não desejados, quase corrompidos. Ainda sangrava e como sangrava. Confundia-se entre o existencialismo e o materialismo. Não era mulher parideira. Era um ser em eterno combate com sua própria natureza. Ventava cabelos entre florestas e relutava em aceitar existência. Não era mulher refletida e manifesta em costelas de um único indivíduo. Era a própria coluna: mulher. A diferença rasgava sua boceta de Pandora, ainda molhada pelos males do mundo. Negava! Negava! Abnegava! E, na Bíblia, encontrou sua resposta: seria a puta que jamais iria parir.
Salve Nossa Senhora!




quarta-feira, 2 de setembro de 2009

FERIDAS DE UMA SACI




FERIDAS DE UMA SACI


02/09/2009


A contradição do ser
arrancada como lâmina
não sangra: SUICÍDIO

na tormenta, nada se ouve
ou se range
apenas cala!

resvala, resvala
mascara
a senzala

um mal-estar me acomete
e não sou mais a mesma

cansei
juro que cansei!

sórdidos corpos
bailam para um deus morto

e ninguém vê
apenas crê

rastejo invisível
em tapetes vermelhos
e alguém ouve meu corpo?

meu corpo está aí
dançando pelo chão


esquálido
e quase esquartejado de si

Amém e Além



sábado, 29 de agosto de 2009

21 versos

29/08/2009

sete pecados
sete dias
sete vidas
sete oitavos
sete de espadas
sete cores
sete artes

e na luxúria de deus
nem o mundo se fez
apenas inferno

a poesia amarra e agarra: AMARGA
impõe suas garras
e apaga um arco-íris jamais visto

e a arte?
disseca masturbações ao léu
e quase esconde autoria

pensava na existência
e a libertação lhe era necessária
temia e ardia

“o sarcasmo acorrenta”, gritavam os medíocres.
e ainda sonhava
e como sonhava... Ah! Dali!