terça-feira, 19 de julho de 2011

nós: as quatro! - o começo, o meio, o durante e o sempre!

Ano que vem faremos 10 anos. E não se trata de casamento. Aliás, quase isso. Foram brigas, silêncios, gritos, risadas, gargalhadas e, principalmente, muita bobeira. Talvez as mais bobas do universo. Pois é, estas são as minhas melhores amigas: Giovanna Biotto, Renata Scocate e Daniele Rosário. Minhas irmãs, amigas e companheiras. Tudo começou num jogo de futebol inocente. Uma tal pretinha “nerd” da fileira da frente na faculdade pediu para ir junto. E assim tudo começou. As danças e músicas engraçadas. Matávamos aula, bebíamos e, mesmo assim, conseguíamos ser boas alunas... Quase inexplicável, mas mesmo sem dinheiro e completamente duras, também conseguíamos ir a quase todas as baladas. Quase inexplicável. Éramos daquelas que levavam a gaita do pai para tocar no meio de uma aula sobre criatividade em jornalismo. E nenhuma sabia tocar gaita. Era só o professor direcionar para a lousa para iniciarmos a empreitada musical. Ou então, enviar bilhetinhos para a turma toda com os seguintes dizeres: “Quem colou o apagador no teto?”; “Quem colocou a mochila no ventilador?”. Caíamos na gargalhada quando alguém olhava para o teto ou para o ventilador em vão. Jura que nos amavam... Ou então, uma de nós ser expulsa de quase toda aula e ainda assim acordar a outra para sair junto. Ou capotar um carro na valeta e ainda fazer uma música disso. Ou brigar uma com a outra e fazer uma piada. Ou então transformar uma engenheira numa jornalista praticamente formada. Ou alisar o cabelo de uma amiga com um produto químico e confiar plenamente nelas. Ou tomar Lacto Purga para emagrecer. Ou comer uma lasanha inteira sozinha. Ou imitar os trapalhões no meio da balada e fazer FOM em todo mundo. Ou inventar os piores apelidos e não ter vergonha disso. E, simplesmente, ser o que realmente somos. Bobas, felizes, amigas e irmãs. AMO MUITOS VOCÊS!!!!!


sexta-feira, 15 de julho de 2011

Abjetos

Quando vamos ao dicionário e questionamos o significado da palavra “objeto”, nos deparamos com:
1. Tudo o que é exterior ao espírito.
2. Coisa.
3. Assunto, matéria, causa, motivo.
4. Fim, escopo.
Mas fui ao dicionário por quê? Porque recebi de uma querida amiga o texto intitulado Objetos, de autoria do filósofo e colunista da Folha de S. Paulo, Luiz Felipe Pondé, publicado no dia 11 de julho. (clique para ler)

RESPOSTA: 
Humildemente confesso que, quando penso a sério em mulher, muitas vezes penso nela como causa. Que dá sentido à existência. Muito além da maternidade, que é uma das mais profundas formas de amor já existente. A mulher traz sentido ao inexplicável, traz subjetividade à objetividade massacrante. E, no fundo, todos nós sabemos disso.
Eu, particularmente, desconfio de gente que impõe revanchismos ou propõe ataques gratuitos. Desconfio de gente insensível ao outro. Desconfio de gente que desconsidera que todos nós somos seres humanos e, portanto, passíveis ao erro. Sendo um colunista ou um motorista de bike. Desconfio de gente com inúmeros títulos acadêmicos, mas, mesmo assim, insistem em ignorar a História. Desconfio de gente que escreve como pêssego ressecado.
Sou, como costumo dizer, uma indignada. Não só hoje, como em todos os dias, devemos cultivar o eterno questionamento e por razões de sanidade mental e responsabilidade social. 

Mas, falando sério, desconfio de homens que pensam na mulher apenas como objeto, especialmente quando é crescente o número de mulheres no mundo. Desconfio barbaramente de homens que pensam na mulher como objeto e ouso pensar que estes não saem de seus respectivos banheiros tão cedo.
Desconfio de homens que ignoram o diálogo cotidiano. Desconfio de homens que não compreendem o companheirismo e a cumplicidade que envolve um relacionamento. E digo mais: não se trata de uma guerra de sexos e sim, de respeito. Respeito, igualdade, gentileza entre ambos os gêneros: feminino e masculino.
Não pergunto filosoficamente, mas popularmente: que homem mantém uma relação apenas por sexo? Que homem ama sem admirar? Que homem ama sem ser gentil? Apenas os insanos, meu caro.
Agora, tratemos sobre sexualidade? Poxa, é super legal ser lésbica? É super legal enfrentar o preconceito? É super legal ouvir agressões nas ruas? É super legal não poder manifestar amor em público? É super legal ter medo todos os dias?
A pior forma de solidão é declarar guerra às mulheres. É declarar guerra a um ser humano. É ser infeliz. E, por fim, a pior forma de solidão é render a arte de escrever e de sensibilizar corações e mentes, ao poder, à vaidade, à violência, à agressão gratuita. Não tenho o objetivo de configurar revanchismos baratos com este texto, mas sim fazer um alerta: a pior forma de solidão é ignorar o outro.


terça-feira, 12 de julho de 2011

Unidunitê das contradições

“Eu sou uma mulher sem preconceito”. “Filho gay eu não admito”. Estas foram as duas frases da mãe que recebeu a notícia que o filho é gay no episódio desta terça-feira, dia 12, na novela Insensato Coração. Não se trata de mera coincidência e sim, de sincera realidade. Conheço inúmeros casos de pais que proclamam contra o preconceito, que têm amigos e até parentes homossexuais, mas quando se trata do filho ou da filha, a história muda de rumo. E aí vem o preconceito, o julgamento moral, as agressões e o total desrespeito. E a isso chamo: HIPOCRISIA.
O que faz uma mãe ou um pai agredir o filho com as piores palavras e, muitas vezes, chegar à violência física? O que faz uma mãe ou um pai desrespeitar uma filha lésbica ou um filho gay? O que faz uma mãe ou um pai renegar uma mulher que gosta de mulher ou um homem que gosta de homem? O preconceito. A libertação é sempre secundária e mascarada. Aquele olhar hipócrita para a realidade, aquele aceno da varanda em paradas gays, aquela pseudo indignação em casos de agressão com outrem. As contradições nos rodeiam e não fogem dos lares.
É bom avisar que ninguém escolhe sexualidade, ou então, existiria unidunitê. A coisa não funciona bem assim. Muitas vezes, é preciso educar mães e pais. E acreditem: eles não são sagrados! São iguais a qualquer outro ser humano e, portanto, passíveis ao erro. Imaginem ser expulso de casa, escorraçado e ainda levar uns tapas do pai simplesmente pelo fato de amar outro homem. Sim. O filho apanha por amar. Simplesmente isso. E a ele é negado todo e qualquer tipo de amor ou respeito pela família.
Sei que, infelizmente, a sociedade é conservadora, mas fazer um outro ser humano sofrer é pecado capital, embora eu não acredite em pecado. Respeito. Amor ao próximo. Apenas isso. Nada mais. Se você, pai ou mãe, tem um filho gay ou uma filha lésbica, não ignorem, não agridam, não tratem como animais. Respeito é um direito e eu questiono para que uma família nesse sentido? Perdeu-se. E fim.

terça-feira, 5 de julho de 2011

TV CCE 19 polegadas - Parte II



Após insistentes reclamações no SAC da CCE, resolvi postar nesse blog e redes sociais o relato da minha saga com a televisão 19 polegadas. Pois bem, dois dias depois da divulgação do texto entre meus contatos, a CCE me ligou nessa terça-feira, dia 5 de julho, às 15 horas. A motivação inicial do atendente foi me ouvir. Após meu relato, ele ainda tentou incitar algum erro de procedimento meu, dizendo que eu deveria ter levado a TV a uma assistência técnica relacionada à informática e não uma de eletroeletrônico. Lembrando que encaminhei aos locais autorizados conforme orientação da própria CCE. Pois é, descobri que meu aparelho realmente não é atendido pelas assistências que a CCE havia me passado e o próprio atendente concordou comigo.

Logo depois, eu disse: “Tenho todos os e-mails e registros. Inclusive, tenho uma declaração da assistência técnica que não quis receber o meu aparelho”. Enviei o e-mail no mesmo momento para o consultor de relacionamentos (denominação na assinatura dos e-mails) que, sem escapatória, concordou comigo. E o próximo passo será o seguinte, segundo a CCE: irão retirar o aparelho em MINHA casa, sem qualquer custo; e outro atendente da empresa irá retornar a chamada para pegar mais dados e agendar a retirada.

Vale lembrar que eu paguei R$ 30 por uma retirada completamente desnecessária à primeira assistência técnica E não é que exatamente às 15h30 a CCE retornou a chamada?!? Eu não estava com o número de série em mãos, mas o atendente ficou de me retornar ainda hoje novamente. De acordo com a CCE, irão enviar o meu aparelho à fábrica e repor as peças danificadas e o prazo é de até sete dias úteis.

Faço questão de repetir no texto o nome da empresa (CCE) para reforçar a cada momento de quem se trata. Além do meu agradecimento às pessoas que divulgaram este relato, deixo também uma dúvida: pergunto ou não para a CCE se posso trocar a marca do meu aparelho? hahaha

domingo, 3 de julho de 2011

CCE, a marca do Brasil?

Ela tinha um jeito diferente, meio revoltada e rebelde, mas eu a amava do mesmo jeito. Depois de meses solitária, apenas com um computador, passei a tentar compreendê-la. A entender o seu OFF inusitado e as suas irreverentes expressões. Não! Não se trata de um caso de amor! E sim, de um caso de revolta! Eu quero minha TV CCE funcionando!!!!


Certamente, a CCE marcou a minha vida. Ganhei uma TV LCD 19 polegadas no início do ano. Depois de algum tempo, o aparelho começou a desligar sozinho, sem qualquer programação timer; e o botão de volume não saia da tela, a não ser que outro controle fosse ativado, como a troca de canais. Pois bem, dei entrada em uma assistência técnica, localizada em Engenho Novo. Vieram buscá-la e me cobraram R$ 30 pela retirada do equipamento. Até aí não me queixei, desde que trouxessem meu aparelho intacto e funcionando. No dia seguinte, minha TV estava de volta e com o MESMO problema: desligando sozinha e com o botão de volume insistente. Aliás, parecia que nem havia sido retirada da caixa. Entrei em contato com a assistência técnica e agendaram nova retirada: um, dois, três agendamentos e nada de retornarem. Resolvi falar diretamente com o técnico que ficou surpreso pelo problema persistir e se comprometeu a buscá-la pessoalmente. Muito bem, passei o sábado inteiro esperando. Ainda bem que sentada. Entrei em contato com o SAC da CCE via telefone e me informaram que deveria levar NOVAMENTE o aparelho à assistência técnica, pois sem o protocolo de atendimento não poderiam acompanhar o processo. Não satisfeita, quis registrar uma reclamação à negligência da CCE e do atendimento e fui IMPEDIDA por duas vezes. Ainda perseverando, encaminhei e-mails via site. A essa altura eu já estava me acostumando com esse jeito único da minha TV, mas eis que um amigo me alertou: denuncie no site Reclame Aqui. Denunciei e menos de 48 horas, a CCE entrou em contato por e-mail informando o mesmo que foi dito ao telefone. Me enviaram uma lista de assistências e iniciei a saga das ligações. Boa parte não atendia o modelo da minha TV (TL 470) e consegui uma na Barra da Tijuca. Eu moro na região central do Rio de Janeiro e me desloquei até lá com uns amigos para levar o aparelho. Aliviada no balcão, penso que, finalmente, vão domar a rebeldia desta TV. Mas, para minha surpresa, eles NÃO atendem a esse modelo também! Portanto, fui à toa seguindo as instruções da própria empresa, conforme e-mail encaminhado e orientações via telefone.

Se antes a TV era a revoltada dessa história, agora os papéis se inverteram e eu EXIJO que meus direitos sejam RESPEITADOS. E é claro que tudo isso precisa ser publicizado em consonância ao meu próximo passo: o tribunal de pequenas causas. Portanto, vamos mostrar à CCE porque ela é a marca do Brasil. E porque ela marcou a minha e, possivelmente, a sua história! CCE NUNCA MAIS!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

série - Inversos Títulos

02/06/2011

abre quase bege
confunde
arranha paredes
abre abre
a vida
pálida
fecha fecha
esquálida
foi-se

A CORTINA

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Sou “veado” e com i maiúsculo

“Bolsonaro diz que PSOL é partido de pirocas e ‘veados’”. Este foi o título da matéria de muitos veículos de comunicação desta quinta-feira, dia 19. Uma atrás da outra, justamente na semana em que comemoramos o dia internacional de luta contra a homofobia (17 de maio). Então, digo a esse certo indivíduo o seguinte: se lutar pela igualdade de direitos significa ser “veado”, então eu sou “veado”. Lutar pela livre orientação sexual significa ser “veado”, então eu sou “veado”. Acreditar no amor entre duas pessoas, independentemente de sexo, significa ser “veado”, então eu sou “veado”. Lutar contra todo e qualquer tipo de opressão significa ser “veado”, então eu sou “veado”. Acreditar que este tipo de manifestação preconceituosa só induz à violência e não contribui em nada para um mundo melhor significa ser “veado”, então eu sou “veado”. Acreditar na verdadeira democracia livre de desigualdades sociais significa ser “veado”, então eu sou “veado”. Acreditar que o respeito é possível significa ser “veado”, então eu sou “veado”.

E digo mais: sou “veado” e com i maiúsculo!


Se você acredita nesses princípios básicos por um mundo melhor, justo e VERDADEIRAMENTE solidário, entregue-se a essa tal “veadagem”. Direitos são iguais e devem ser respeitados! Chega de homofobia!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

inexplicável

16/05/2011

Inexplicavelmente

atenta
desatenta

corpo cão
em vão

mente insana
vida mundana

trilho vai e não vem
a luz se apagou

e o túnel desmorou

domingo, 8 de maio de 2011

Miss Alteridade

08/05/2011


Há anos convivia com essa estranha suspeita. Tão transversal que corria pelo corpo lhe sangrando a cada dia. Não tinha como rejeitar, mas podia ignorar, embora sua presença lhe fosse constante. Era sua irmã, sua amante, sua mãe. Era aquilo que lhe movia. Não sabia ao certo o porquê ou para quê, mas aquela raiz cumpria todos os seus sentidos: fazia apodrecer e também amadurecer. Chamavam-lhe de louca, imatura, desequilibrada e até a ameaçavam, mas não conseguia livrar-se dessa companhia maldita. Lhe destinavam a solidão, o isolamento e até o escárnio, este era o que mais lhe doía. O sarcasmo alheio lhe matava aos poucos. Sentia-se incompreendida e encontrava em si o melhor casulo. Não atendia mais aos telefonemas, tinha pavor de longas conversas; evitava saídas; ignorava encontros; tinha inveja da felicidade gratuita das pessoas. Afinal, sua felicidade lhe custava muito caro: a quase abdicação de seu Ser, sentia que a tristeza lhe era natural. Assumia sua parceria inefável em uma relação quase incestuosa de si mesma. De tantas e tantas crises, aprendeu a enxergar o momento exato dessa linha tênue entre sanidade e loucura. Sabia que ao seu lado estava o abismo, e ela tão oblíqua fazia pontas nos pés e observava desejosa esse fundo. Era sua cova, a realização de sua covardia em realidade. Muitas vezes caía. Caía tão profundamente que nada mais lhe fazia sentido. Nada era importante, a não ser sua mais egoísta dor. Sim! Sabia que essa dor era egoísta ou foi muito bem convencida pelo mundo de que toda essa angústia tratava-se de egocentrismo diante dos problemas globais. Mas não. Era apenas uma menina assustada, dividida entre o medo e a constante agonia. Não tinha culpa por aquilo que sentia. Tentava manter-se firme, apenas observar de longe esse buraco sedutor. Tentava os remédios, o álcool, os amigos, a literatura, a religião e até voltava a ter esperança. Mas a melancolia era sua estranha suspeita em repetição, sua irmã, sua amante, sua mãe, sua essência. Nada que fizesse podia arrancá-la. Tentava administrá-la, mas a incompreensão sangrava seu ser. Não podia mais. E em seu sadismo mais maquiavélico,a melancolia lhe apresentava um ménage a trois e sua próxima parceira era a depressão. Surtava, jogava bolsas para o alto, celulares voavam, chorava compulsivamente pelas ruas, escondia-se na escuridão do quarto, desligava os telefones e rendia-se aos programas dominicais, nem mesmo a inspiração lhe era bem-vinda. E quando a esperança tomava de súbito seu coração, pedia: alteridade, por favor, alteridade.

 

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Os filhos do abandono



Os filhos do abandono

04/05/2011

Ato I
Tinha dez anos e brincava com um saco de arroz desenhado como se fosse boneca. Mas tinha tempo contado, pois esse arroz era o único do mês, por isso, não tinha muito tempo para brincar. Aprendeu cedo a cozinhar, tinha os dedos infantis queimados no alho e óleo. Muitas vezes, só óleo. Dois anos depois estava quase saindo da 6ª série e tinha fascínio por triturar as coisas. Triturava o lápis, o batom, o alho, a borracha e, enfim, o giz. A professora não entendia porque sua caixa de giz sempre estava vazia e ela com as marcas em sua mochila vermelha. Cheirava o giz, tal qual pai e mãe. Aprendia. A imitação era seu melhor presente.

Ato II
Sempre sonhava com a pipoca da esquina. Seu pai nunca tinha dinheiro para lanche extra, mal tinha para o sapato surrado. Era aquele que fazia bicos esporadicamente, enquanto a mulher tomava conta dos cinco filhos. E o menino ainda sonhava. Pipoca doce com leite condensado. Pipoca salgada com queijo e bacon. Sonhava com a pipoca e sempre cabisbaixo pelas esquinas da escola. E no tão sonhado dia das crianças no qual as pobres nada ganham, a não ser a caridade e o desejo estimulado pelo consumismo de mercado, ele ganhou uma pipoca do seu Zé da esquina. Tinha quase 14 anos. Quase um homenzinho e sonhava com aquela pipoca. Comeu daqueles sacos grandes com bastante queijo e no final uma surpresa. Seu Zé fora generoso. Nunca imaginara tamanha bondade. Não jogou o saco fora e deixou para abrir em casa. Deliciou-se. Mal dormiu de tanta satisfação. (Eu, sinceramente, caro leitor, lembro-me da sensação do conto de Clarice Lispector intitulado Felicidade Clandestina). No dia seguinte, seu Zé, muito sorridente chamou o garoto e perguntou se ele havia gostado do presente. Assentiu com a cabeça. E seu Zé denunciou: “Vai ter que me pagar garoto, presentinho não é de graça não. Pode tratar de vender essa trouxinha de pó aqui na escola e bem rapidinho. Vai ter que fazer valer seu nariz feliz ai”. Foi assim que as manchetes de jornal começaram.

Ato III
“Pixaim, tribufu de carvão”, era como era chamada na escola desde cedo, além de muitos outros apelidos. Até alguns professores zombavam de seu cabelo. Sempre pensava que tinha namoradinhos, mas eles (literalmente) lhe chutavam a bunda ou a faziam pegar em suas partes íntimas fazendo ser uma brincadeira inocente, mas ao final da aula lá estava ela com a mão embaixo da mesa de algum menino. O mesmo que, mais tarde, lhe chutaria a bunda, lhe xingaria e até tentaria pôr fogo em seus cabelos. Sim, era negra. Era negra como muitas, mas não se arrumava ou se entendia como periguete do bairro. Todos os dias sentava na calçada da escola e chorava. Chorava muito até perder o fôlego. Um dia, se ergueu. Se ergueu tanto que começaram a lhe pagar pelo programa. Tinha apenas 12 anos e já tinha agenda marcada após a escola. Quem era o pixaim? 

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Noturna


Noturna

27/04/2011

Te pareço noturna?
pereço em cena
corpo em vãos da coxia
espremem aquilo que me é
erra

Olha-me de novo
desta vez, pelo buraco
de sua humildade ríspida

Te pareço noturna?
preço
marcada tal qual código de barras
alma em não liquidação moral

Olha-me de novo
pele negra sedenta
além Sol
aquém Lua

Te pareço noturna?
peço
e esmoreço em vitrines mal iluminadas

Olha-me de novo
nunca fui
não sou
não serei

Olha-me de novo
sou você compartilhada em mim

e mais noturna


terça-feira, 19 de abril de 2011

Diálogos indiscretos com Diazepan

Diálogos indiscretos com Diazepan


19/04/2011
- E aí, tudo bem com você?

- Tudo ótimo, tirando minha geladeira que prometeu degelo seco e está vazando por todo o apartamento de menos de 20m²; as ruas do bairro que fedem a xixi e bebida alcoólica; um porteiro tarado na madrugada; um endoscopista que não dá o remédio necessário para evitar uma possível crise emocional durante o procedimento; um guarda-roupa sendo tomado por traças; corredores que são mais área de lazer para barata; as duas horas para sair de sua própria casa devido à negligência pública aos finais de semana; uma TV que pega esporadicamente e desliga de acordo com sua própria vontade; o assédio sofrido quando estou em um ponto de ônibus e carros lotados por bêbados nojentos escandalizam por aí; um estômago que não aguenta mais cerveja por dores de estresse; o vermelho gritando na conta bancária; a vaidade de determinados patrões; calmantes que não mais fazem efeitos; alguns quilos acima do peso que extrapolam a barriga; um computador mais morto que Jesus Cristo e um anjo da guarda em greve. Fora isso, estou com saúde, tenho amigos, família e, sim, está tudo bem.

Ponto final. O diário de uma trabalhadora, mãe,mulher e sonhadora em plena páscoa. Ressurreição. Amém.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Borrão existencial

Borrão existencial


14/04/2011

Nódoa inconfundível em alma. Nada passa no liquidificador. Tentava ser independente. Tentava ser não carente. Tentava ser não filha. Tentava ser não namorada. Tentava ser não amiga. E nesse tentar e intentar. Não era. Nunca foi. Não iria ser. Apenas se a mácula da solidão lhe sussurrasse e tomasse o seu ser por todo o vazio não confundível. Era uma repetição de não; de não ser em seu vinil arranhado. E quando olhava para trás. Nada. Ninguém. Apenas as cinzas de um cigarro vagabundo e, desta vez, sem filtro. Pela primeira vez na vida, não filtrou, não selecionou, não julgou e, enfim, o cinza deu lugar a uma estrada não desbravada: a vida. Era tarde meu amor. E nem ao menos soube o que escreveram em sua lápide.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Prefeitura promove desapropriação em Madureira

A rua Quaxima, localizada em Madureira, Zona Norte do Rio de Janeiro, foi alvo de mais uma desapropriação promovida pela Prefeitura, na manhã desta quarta-feira, dia 13. Cerca de 27 famílias estão com suas casas ameaçadas, devido às obras da Transcarioca (corredor metropolitano que ligará Barra da Tijuca ao aeroporto internacional Tom Jobim). De acordo com Alexandre de Magalhães, representante da Rede Contra Violência, áreas próximas já foram demolidas. “Assim que começaram as obras, os moradores se organizaram, foram à Defensoria Pública, ao Conselho Popular e iniciaram as conversas com os órgãos responsáveis”, relatou Alexandre.

A Prefeitura ofereceu casas no bairro Cosmos, na Zona Oeste, mas nas seguintes condições: as chaves e o contrato só seriam entregues no dia da mudança e no local, e as pessoas teriam que ter saído de suas casas. Segundo Alexandre, dez famílias aceitaram e outras 17 não.

Na sexta-feira, dia 8, os moradores receberam uma notificação para reintegração de posse. “Chegamos aqui e há um enorme aparato, entre guardas municipais, policiais militares, subprefeitura, secretarias. O clima bastante ostensivo”, afirmou. As pessoas não saíram de suas casas, até porque não têm para onde ir e enquanto as negociações se davam, policiais invadiram a área por um outro lado, assustando ainda mais os moradores. “Estamos tentando negociar. O tenente nos disse que o cheque do aluguel social seria pago hoje para as pessoas se retirarem, mas as informações estão muito desencontradas e até mesmo essa invasão da barricada por outro lado mostra o tom da negociação”, explicou Alexandre.

Mesmo se as famílias receberem o cheque do aluguel social, no valor de R$400, existem muitas dificuldades para alugar uma casa. Em Madureira, por exemplo, o aluguel de uma casa está em torno de R$500. “O tenente garante que vão realocar as famílias para o programa Minha Casa, Minha Vida; mas não sabemos para onde e nem quando. Não há certeza”, se indignou Alexandre. Está prevista para a tarde de hoje uma reunião na Secretaria de Habitação entre representantes dos moradores e Prefeitura para tentar um acordo, ao invés de uma desapropriação truculenta, sem respeito aos direitos humanos.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Maria como as outras



01/04/2011

“Eu sou a Maria. Eu sou a Maria. Eu sou MARIA”. Repetia compulsivamente em frente ao espelho, sem ao menos se reconhecer. Lavava o rosto todos os dias pelas manhãs e fazia do sol seu melhor cúmplice. Quando o tempo nublava, ficava muda e fitava seus olhos no reflexo como se fosse Narciso em quadrante despedaçado. Começava o dia assim, e meditava contra as falsas acusações de negligência.

Contorcia-se pelo apartamento desarrumado, escovava os cabelos enquanto acessava sua caixa de e-mails. Nada de mais. Apenas anúncios de sites de compras coletivas, propagandas e vaidades destemperadas. Off. Terminava de se arrumar, ligava o som bem alto e tentava desanuviar qualquer desesperança parida naturalmente. Comia uma fruta. Afinal, tinha que manter sua dieta equilibrada. Precisava trabalhar, mesmo sem querer. Gostava mesmo de ser artista. De pintar pelas paredes do apartamento suas angústias mais profundas, mas dinheiro não tinha para sobreviver só da arte.

Tinha que trabalhar em uma multinacional e ser representada como um número no quadro de profissionais. Escolhia uma roupa qualquer, mas não esquecia-se do salto e da maquiagem muito bem desenhada. Pintava-se. Pintava-se de outra. Pegava o ônibus. Daqueles bem lotados, escondia a bolsa na frente do corpo e seguia o cotidiano comum a todos. No trabalho, mais e-mails e confusões administrativas. Apenas o café lhe era solidário. Gritos, tempo e prazos. Tudo isso atormentava sua rotina. Não compreendia essa tal obrigação de trabalhar. Só queria ser.
- “Mariaaaa”, gritava o chefe.
- “Pois não”, respondia.
- “Venha até a minha sala, por favor”, ordenava o superior com aquela educação mal disfarçada.

E lá ia Maria como as outras.
- “Por que não agendou a reunião com empresários coreanos?”
- “Porque o senhor pediu (na realidade, mandou – pensava secretamente) que eu retirasse o compromisso da agenda e o mantivesse em sigilo”.
- “Minha filha (aquele tom jocoso) você não entendeu direito. Eu não disse em momento algum a palavra sigilo. Você está aqui há dois anos e ainda não compreendeu a filosofia da empresa. Se existe compromisso, agende. Pronto. Entendeu bonitinha?”
- “Bonitinha o caralho”, pensou. Apenas pensou, mas segurou o impulso pelo seu cheque no dia 30.

Abaixou a cabeça e declarou:
- “Desculpe pelo equívoco, não vai mais ocorrer. Vou incluir o compromisso na agenda”.
- “Você não entendeu mesmo. Eu não disse que era para incluir agora. Olha, faz o seguinte minha filha (ironia das bravas), volte para sua mesa e responda aos e-mails da presidência, ok? Estamos entendidos? E que não volte a ocorrer”.

Assentiu com a cabeça e foi em direção à sua mesa. Olhava para o computador e não se enxergava. Sabia que aquela ligeira imagem refletida na tela não lhe pertencia e repetia: “Eu não sou isso. Eu não sou isso. Eu NÃO SOU”. Quis chorar, mas engoliu o café frio.
Arriou os ombros e seguiu a teclar. Olhava para o cantinho da sua mesa e havia um pocket book que ganhara de um amigo, cujo título não alinhava com sua alma: “Ânimo”. Tentava respirar, enquanto isso passava creme em suas mãos ressecadas. Rezava para que o relógio adiantasse algumas horas, mas em vão. Distraía-se com o café e alguns papos de cozinha.
Voltava aos afazeres. Tentava sair do automático, criar e pensar coisas novas; mas o ambiente lhe travava. Enfim, 8 horas terminadas. Uns amigos lhe chamavam para o chopp depois do expediente. Até ia, bebia alguns, ensaiava um porre, mas sentia-se vazia. Até cambaleava pelas ruas para se sentir mais leve e liberta do mundo ao qual pertencia obrigatoriamente e sem saída.
Já era tarde da noite, voltava só para casa. Desviava de corredores e colunas. Se pudesse, ficaria agachada no elevador e nunca mais sairia de lá. Pelo menos, o elevador lhe permitia mais respirações que lá fora. Não se entendia. Não entendia a incompreensão raivosa do mundo. A agressão gratuita. A raiva desmedida. A intolerância descabida. O ser obrigatório. Depois de refletir no elevador, adentrou em sua casa. Começou a procurar objetos e tomou posse de movimentos furtivos. Pintou. Pintou com toda sua voracidade. E, em alguns minutos, a parede de seu quarto estava quase preenchida, faltando apenas um espaço em branco. Tudo era vermelho. Sangue de seu sangue. Cortara, enfim, os pulsos e ilustrava uma vida em branco. Simplesmente em branco. Foi Maria.